RACISMO ESTRUTURAL NO BRASIL
Desembargadora Adenir Carruesco relata racismo estrutural após ser confundida com funcionária
Desembargadora Adenir Carruesco, do TRT-23, foi abordada em supermercado e relatou o episódio que evidencia a associação naturalizada de pessoas negras com serviços. A magistrada critica a baixa representatividade em cargos de liderança.
A desembargadora Adenir Carruesco, do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região (TRT-23), afirmou que o episódio em que foi confundida com uma funcionária de supermercado, em Cuiabá, reflete uma lógica social enraizada no Brasil. O caso, ocorrido no domingo, 17 de maio de 2026, evidenciou, segundo ela, a frequência com que situações semelhantes impactam o cotidiano da população negra. A repercussão do relato nas redes sociais confirmou essa percepção.
Durante uma compra em um supermercado da capital mato-grossense, a magistrada foi abordada por uma mulher que solicitou informações sobre produtos, presumindo que Adenir Carruesco trabalhasse no local. A desembargadora explicou que, embora não tenha registrado boletim de ocorrência por entender que a situação não configurava crime individual, sua intenção foi denunciar uma estrutura social que naturaliza a associação entre o corpo preto e o serviço. 'Ela agiu pela lógica que o senso comum brasileiro internalizou, não por malícia ou ódio', declarou.
Carruesco destacou que a sua permanência em silêncio no momento da abordagem foi uma escolha para evidenciar a profundidade da questão. 'Era a manifestação de uma lógica tão arraigada que opera automaticamente', disse. A surpresa com a vasta repercussão do caso e a quantidade de relatos de experiências semelhantes por parte de outras pessoas reforçaram sua percepção. 'Muitas relataram episódios semelhantes, outras narraram situações muito mais graves. Isso mostra que o que vivi no supermercado não é um caso isolado. É um retrato', afirmou.
A magistrada ressaltou a discrepância entre a representatividade de pessoas pretas e pardas na população brasileira, que somam 55,5%, e sua presença em cargos de poder e liderança. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) indicam que apenas cerca de 14% dos magistrados no país são negros. Em tribunais superiores, a proporção de juízes brancos ultrapassa 85%. 'A ausência de pessoas negras em cargos de liderança não é apenas um reflexo do racismo estrutural, é a sua prova mais evidente', sentenciou Adenir Carruesco.
Para a desembargadora, essa exclusão histórica afeta a autoestima, o desenvolvimento pessoal e profissional e o sentimento de pertencimento da população negra. Ela relacionou diretamente o episódio vivido no supermercado à ausência de negros em posições de destaque: 'Quando uma mulher preta é confundida com funcionária de supermercado, não é erro de percepção, é a consequência natural de um país que sistematicamente apagou o negro dos espaços de poder'.
A desigualdade racial se estende a outros âmbitos, como a academia e a ciência. Um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) revelou que, entre 2000 e 2024, quase 9 em cada 10 líderes de grupos de pesquisa certificados pelo CNPq eram brancos. Pesquisadores negros, pretos e pardos representavam apenas 11,64% das lideranças científicas na universidade, com pesquisadores brancos coordenando 86,3% dos projetos no período, evidenciando a predominância branca mesmo com políticas de inclusão.
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