EDUCAÇÃO É PREVENÇÃO
Delegada Michelle Barros defende educação familiar como chave para combater feminicídios no RN
Delegada Michelle Barros aponta a importância do respeito e da não normalização da violência no lar para a redução de crimes contra a mulher. Dados apontam alta nos casos do RN.
A crescente taxa de feminicídios no Rio Grande do Norte, conforme aponta a Secretaria de Estado das Mulheres, da Juventude, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos (Semjidh), está diretamente relacionada ao recrudescimento de conflitos permeados por misoginia e ao controle exercido no ambiente doméstico. Essas dinâmicas dificultam a ruptura do ciclo de violência que aflige tantas mulheres.
A delegada de Polícia Civil Michelle Barros, que dedica 13 anos de sua carreira ao combate à violência doméstica, tanto no setor público quanto no social, enfatiza a necessidade de as mulheres estarem atentas aos sinais que podem preceder delitos dessa natureza. Ao longo de sua atuação no Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), em Natal, ela reitera um ditado popular: “Costume de casa vai à praça”. Essa máxima, segundo a delegada, fundamenta a redução de crimes quando aplicada à educação no lar.
“Tudo começa pela educação no lar, através da família, para que os homens as respeitem. Também é crucial que as mulheres não normalizem as agressões físicas, psicológicas, sexuais e patrimoniais praticadas por qualquer um que seja”, defende Michelle Barros. Ela também ressalta a dependência financeira e emocional como fatores cruciais que perpetuam a vulnerabilidade das vítimas diante de seus parceiros agressores. “Em muitas situações, quando a mulher tenta se desvencilhar, esse ato não é aceito”, pontua.
A delegada percebe, nos dias atuais, uma “romantização do dinheiro fácil” associada ao crime organizado. Essa atração, segundo ela, afeta mulheres sem uma base familiar sólida e sem uma educação saudável em casa, que as guie sobre os conceitos de certo e errado, tanto na esfera social quanto legal. “Com isso, a mulher entra direto ou indiretamente no mundo do crime, levando iminente risco a sua vida. Uma vez que está inserida nessa situação é difícil se desvincular, pois a dependência vai além do financeiro e emocional, uma vez que existem leis internas do crime que, após arregimentar pessoas, dificultam a desvinculação”.
A importância da rede de proteção e do amparo às vítimas é indiscutível. Os dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) revelam que o Rio Grande do Norte registrou 10 vítimas de feminicídio apenas no primeiro trimestre de 2026. Em 2025, o estado contabilizou 21 feminicídios consumados e 76 tentativas, números que superaram os de 2024 (19 mortes e 67 tentativas). Com esse índice no início de 2026, o RN igualou a segunda maior alta proporcional do Brasil a Sergipe e Amazonas. Nacionalmente, o país registrou 399 mulheres assassinadas no mesmo período, o maior número para um primeiro trimestre desde o início da série histórica, em 2016.
Para denúncias de violência contra a mulher, o Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher) e os números de emergência locais, como o da Polícia Militar (190), são canais essenciais de apoio e proteção.
É fundamental compreender a distinção entre homicídio e feminicídio. Enquanto o homicídio consiste no ato de matar qualquer pessoa, independentemente do gênero, o feminicídio se configura especificamente no assassinato de uma mulher em razão de sua condição feminina. Este crime é tipificado no Código Penal como autônomo e hediondo, ocorrendo em contextos de violência doméstica e familiar ou quando há menosprezo ou discriminação à condição de mulher, incluindo violência sexual, humilhação ou sentimento de posse.
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