PERCEPÇÕES SOBRE CÂNCER

Um em cada quatro brasileiros ignora que o câncer pode ser prevenido

Mãos segurando um laço de fita azul, símbolo da prevenção do câncer, com o Brasil ao fundo.
Brasil terá 781 mil novos casos anuais de câncer até 2028 segundo estudo; na imagem, mãos segurando laço de fita azul, símbolo da prevenção do câncer.

Pesquisa nacional do INCA revela lacunas no conhecimento sobre fatores de risco, como peso corporal, alimentação e álcool, contrastando com o alto reconhecimento do tabagismo e herança genética.

Ainda que o Brasil se prepare para registrar 781 mil novos casos anuais de câncer entre 2026 e 2028, dados recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) revelam uma preocupante falha na percepção pública: cerca de um em cada quatro adultos brasileiros desconhece que a doença pode ser prevenida. Esta descoberta, parte do relatório "Mais Dados Mais Saúde — Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer", organizado pela Umane e Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive e parceria técnica do INCA, lança luz sobre barreiras silenciosas à adoção de comportamentos que protegem a saúde e a dignidade.

A pesquisa, que ouviu 6.566 adultos em todos os estados do país entre setembro e outubro de 2025, sugere que até 40% dos cânceres poderiam ser evitados com mudanças de comportamento e ambientais. A crença na inevitabilidade da doença, portanto, compromete o potencial de prevenção e o bem-estar individual e coletivo.

Fatores amplamente divulgados, como o tabagismo (reconhecido por 90,5% dos entrevistados) e a herança genética (89,4%), lideram o conhecimento popular. A exposição solar excessiva também é bem lembrada (88,3%). Estes temas, frequentemente abordados em campanhas e na mídia, contrastam fortemente com a baixa percepção sobre outros elementos cruciais.

O excesso de peso, por exemplo, é associado ao câncer por apenas 54,1% da população. Bebidas adoçadas e baixa ingestão de frutas e verduras são vistas como fatores de risco por 55,3% e 53,3%, respectivamente. O sedentarismo é identificado por 48,3%, e a carne vermelha, um pilar da dieta brasileira, é reconhecida como fator de risco por menos de três em cada dez brasileiros (27,5%).

A forte associação à herança genética, sem a devida informação sobre fatores modificáveis, pode alimentar uma visão fatalista sobre o câncer, desestimulando a busca por hábitos mais saudáveis e minando a autonomia individual na proteção da própria vida.

CRENÇAS EQUIVOCADAS E IMPACTOS NA SAÚDE

A pesquisa também desvendou percepções equivocadas com potencial impacto direto na saúde. Mais de 61% dos brasileiros acreditam que suplementos vitamínicos e minerais previnem o câncer, uma ideia sem respaldo científico. O INCA reforça que a fonte ideal de nutrientes protetores é uma alimentação equilibrada, priorizando alimentos in natura. A recomendação de suplementos é restrita a situações clínicas específicas, para evitar gastos desnecessários e uma falsa sensação de segurança, muitas vezes impulsionada pelo marketing.

Na esfera da saúde materno-infantil, a realidade também revela lacunas: quatro em cada dez brasileiros desconhecem que o aleitamento materno é um fator de proteção contra o câncer de mama para quem amamenta, com benefícios que aumentam com o tempo de duração.

COMPORTAMENTO ALIMENTAR E ESTILO DE VIDA DOS JOVENS

O consumo de ultraprocessados é relatado por cerca de 45% dos entrevistados, com uma parcela significativa tentando reduzir o hábito. Padrão semelhante se observa para embutidos e bebidas adoçadas. No caso da carne vermelha, o consumo sem tentativa de redução atinge 45%, refletindo o baixo reconhecimento de seu risco e a relevância cultural do alimento no país.

Os jovens de até 24 anos despontam com os piores indicadores de consumo e menor conhecimento sobre fatores de risco associados a esses alimentos. Por outro lado, a maioria da população (86,3%) afirma consumir frutas, legumes e verduras, com um percentual de 8,3% entre os não consumidores expressando intenção de iniciar o hábito.

DESAFIOS DE SEDENTARISMO, PESO CORPORAL E ÁLCOOL

A prática de atividades físicas é declarada por 52,2% dos entrevistados, com 39% dos inativos manifestando desejo de começar. No entanto, pessoas com renda mais baixa demonstram menor conhecimento sobre o sedentarismo como fator de risco. A percepção e a ação em relação ao peso corporal também variam por renda, com indivíduos de menor poder aquisitivo encontrando mais barreiras para a mudança de hábitos.

O álcool, associado a pelo menos oito tipos de câncer, é reconhecido como fator de risco por apenas 71,3% dos brasileiros. Jovens de até 24 anos apresentam a menor intenção de reduzir o consumo, o que é preocupante diante da associação direta da bebida com diversas formas da doença.

UM APELO POR POLÍTICAS PÚBLICAS INTEGRADAS

Os resultados da pesquisa "Mais Dados Mais Saúde" indicam a necessidade urgente de estratégias que ampliem o conhecimento sobre fatores de risco menos conhecidos. A transição para uma vida mais saudável requer políticas públicas estruturais, como a taxação de produtos ultraprocessados e álcool, rotulagem frontal clara nos alimentos, e a criação de espaços seguros para a prática de atividade física. O fortalecimento dos serviços de saúde, com acesso facilitado ao diagnóstico precoce e programas de cessação do tabagismo, é fundamental, com atenção especial às populações mais vulneráveis, garantindo o direito à saúde e à dignidade.

Este texto foi originalmente publicado pelo The Conversation, em 3 de junho de 2026 as 8h53. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.

Gostou desta notícia?

Entre no nosso grupo do WhatsApp!

Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!

📲 Quero entrar no grupo

Compartilhe esta matéria

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário