CIÊNCIA E TRANSCENDÊNCIA
UFRN debate limites da consciência e experiências de quase-morte
Especialistas da UFRN analisam fenômenos da consciência fora do materialismo, integrando medicina e filosofia na prática clínica.
Especialistas da UFRN debateram os limites da consciência humana e as chamadas experiências de quase-morte (EQM) no mais recente episódio do podcast Conexão Saúde, da TV Agora RN. A discussão, realizada nesta terça-feira, 14/07/2026, reuniu o médico psiquiatra Francisco Rodrigues, professor de Medicina, e o filósofo Sérgio Della Savia, do Departamento de Filosofia da instituição, para analisar como a ciência contemporânea tem lidado com relatos que desafiam a visão puramente materialista da vida.
Para os acadêmicos, a compreensão desses fenômenos exige uma abordagem multidisciplinar. Francisco Rodrigues, que coordena a disciplina “Medicina, Saúde e Espiritualidade” no Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL/UFRN), defende que médicos devem estar preparados para diferenciar vivências espirituais de quadros psiquiátricos. “Estamos discutindo a espiritualidade dentro da universidade com rigor científico. Precisamos observar os fatos que ocorrem ao nosso redor, mesmo quando não podemos palpá-los”, pontua.
Sérgio Della Savia destacou a importância de distinguir espiritualidade de religiosidade. Segundo ele, o espiritualismo é uma corrente filosófica que investiga aspectos da realidade que extrapolam o princípio da matéria. O pesquisador também ressaltou a evolução dos estudos sobre o tema, citando desde o pioneirismo da obra Vida Depois da Vida, de Raymond Moody, até as pesquisas contemporâneas de Sam Parnia, da Universidade de Southampton, no Reino Unido, que monitoram atividades cerebrais durante a reanimação cardiopulmonar.
A discussão levanta um ponto crucial sobre a dignidade do paciente: a necessidade de acolhimento profissional. Ao relatar mudanças profundas de valores após uma experiência de morte clínica, indivíduos muitas vezes enfrentam incompreensão médica. “É preciso entender que isso é um fenômeno real. A pessoa deve ser respeitada em seu testemunho, sem que seja classificada automaticamente como portadora de delírios”, defende Della Savia.
O debate aponta para uma lacuna na formação tradicional, que nem sempre oferece ferramentas para lidar com a subjetividade de quem sobreviveu a processos críticos de saúde. Enquanto a UFRN mantém aberta a disciplina “Medicina, Saúde e Espiritualidade” para estudantes e ouvintes — com aulas às quartas-feiras, às 17h, no HUOL/UFRN —, o diálogo entre a filosofia e as ciências biológicas segue como uma fronteira aberta para novas investigações científicas.
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