CIÊNCIA E SAÚDE
Congelamento de cordão umbilical: a realidade por trás da promessa
Armazenar material genético envolve altos custos e indicação médica restrita. Especialistas alertam que chances de uso próprio são pequenas.
O procedimento de coletar e congelar células do cordão umbilical tem sido apresentado como uma forma de "poupança biológica", mas especialistas alertam para a diferença entre a expectativa gerada e a aplicação clínica real. A técnica consiste em coletar o sangue após o parto e mantê-lo a temperaturas negativas extremas, visando o possível tratamento de doenças futuras, como leucemias e síndromes genéticas.
No início deste mês, a atriz Camila Queiroz relatou a experiência de realizar o procedimento para a filha, Clara, descrevendo a coleta como um processo simples, seguro e indolor. De fato, a coleta, realizada minutos após o nascimento, não interfere nos cuidados com o recém-nascido, mas exige uma logística rigorosa para garantir a viabilidade das células até o laboratório.
O custo para manter esse material em bancos privados gira em torno de R$ 4 mil pela coleta, acrescido de uma taxa de manutenção anual próxima a R$ 1 mil. Segundo levantamento, nas últimas duas décadas, menos de 30 amostras de cerca de 165 mil armazenadas em bancos privados foram utilizadas, evidenciando o abismo entre a oferta do serviço e a demanda real.
Nelson Tatsui, hematologista da equipe de hemoterapia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e diretor clínico da Criogênesis, destaca que as células-tronco do cordão são valiosas pela sua juventude e capacidade de regeneração. Contudo, Fernanda Guttilla, ginecologista do Hospital Sírio-Libanês, pondera que o uso do material do próprio doador possui limitações técnicas importantes.
Em muitos casos de doenças genéticas ou cânceres sanguíneos, o uso do próprio cordão é desaconselhado, pois as células podem conter a mesma predisposição genética da doença ou não oferecer o efeito terapêutico de "enxerto contra o câncer" que um doador compatível proporcionaria. Além disso, o volume de células colhidas de um único cordão pode ser insuficiente para pacientes adultos.
Marta Lemos, do A.C.Camargo Cancer Center, reforça que a família possui outras alternativas, como a busca por doadores compatíveis no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome). Para a rede pública, a doação do cordão permite que o material fique disponível para qualquer paciente compatível, sem custos para a família, embora essa rede enfrente desafios de operação atualmente.
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