EMPRESA E POLÍTICA NA MIRA
Polícia Federal detalha rede de políticos sob suspeita em investigação contra Daniel Vorcaro
Operação Compliance Zero revela que Daniel Vorcaro teria custeado viagens, hospedagens e repasses para parlamentares do Congresso Nacional. Banco Master é investigado por esquema financeiro.
Investigações da Polícia Federal (PF) ampliaram o cerco contra Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, desvendando uma intrincada rede de articulações políticas. Um relatório da Operação Compliance Zero, divulgado na terça-feira, 16 de junho de 2026, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, detalha como o banqueiro teria oferecido viagens internacionais, hospedagens de luxo e outras vantagens a influentes figuras do Congresso Nacional. As descobertas impactam diretamente a dignidade de representantes públicos e a confiança na integridade das instituições.
Entre os citados está o senador Ciro Nogueira (PP-PI), descrito por Vorcaro em mensagens privadas como um “grande amigo de vida”. O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), também aparece nas apurações, embora não seja investigado pela PF. Ciro Nogueira, por outro lado, figura entre os alvos da investigação e teve mandados de busca e apreensão autorizados pelo STF em maio.
A PF aponta que Ciro Nogueira teria recebido benefícios financeiros e outras vantagens custeadas por Vorcaro enquanto atuava no Senado em pautas de interesse do Banco Master. Os investigadores detalham que os pagamentos mensais ao senador, descritos como “mesadas”, poderiam ultrapassar R$ 500 mil, totalizando cerca de R$ 6 milhões entre 2024 e 2025. Além de repasses em dinheiro, o parlamentar teria recebido participação societária em empresas e o custeio de viagens internacionais, incluindo voos em jatos particulares e hospedagens de luxo.
Um dos pontos centrais da apuração é a apresentação da Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023, conhecida como Emenda Master, em agosto de 2024. A proposta, integralmente redigida pela assessoria jurídica do banco, previa a ampliação do limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante em caso de quebra de instituições financeiras. Essa medida beneficiaria diretamente o Banco Master, cujo modelo de negócios se baseava na captação agressiva de recursos protegidos pelo FGC para direcioná-los a investimentos de maior risco. Vorcaro celebrou a emenda em mensagens, classificando-a como uma “bomba atômica no mercado financeiro” que “sextuplicaria” os negócios do Master.
A relação entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro ia além dos “negócios”. Em mensagens trocadas em maio de 2024, obtidas pela PF, o banqueiro demonstrava entusiasmo ao falar sobre o senador: “Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida”. As conversas revelam ainda planos de comparecer ao casamento da filha do senador, Duda Nogueira, acompanhado da então namorada.
O relatório da Operação Compliance Zero também aponta que Daniel Vorcaro custeou, de forma sistemática, viagens e despesas pessoais do senador Ciro Nogueira entre 2024 e 2025, com uso frequente de aeronaves particulares e serviços de alto padrão. Destinos como Paris, Nova York e Portugal foram citados. Um episódio destacado envolve a viagem a Lisboa, em junho de 2024, quando o senador teria dividido um jato particular do ex-banqueiro com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Mensagens de WhatsApp indicam que Vorcaro providenciou reservas de hotel na capital portuguesa para “Ciro e Hugo”, com diárias de cerca de 3 mil euros, confirmadas por fatura.
Hugo Motta afirmou ter “muita tranquilidade” em relação às citações, declarando que suas relações são “corretas e institucionais” e que o encontro ocorreu em evento corporativo e jurídico em Lisboa. Ele declarou desconhecer qualquer irregularidade envolvendo o ex-banqueiro. As datas coincidem com a 12ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa.
A relação entre Hugo Motta e Daniel Vorcaro, segundo as investigações, teria se estendido à solicitação de um empréstimo no Banco Master para uma empresa ligada à sua cunhada, Bianca Araújo Medeiros, em março de 2024. O recurso teria sido utilizado na compra de um terreno em João Pessoa (PB). Motta defendeu a operação, afirmando que seguiu trâmites regulares e que o banco estava autorizado a funcionar no período.
O escândalo também se aproximou do núcleo político ligado ao governo federal com o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), alvo de mandados de busca e apreensão da PF. Suspeita-se que ele tenha recebido vantagens indevidas, por meio de pessoas ligadas a Vorcaro, para atuar em defesa de interesses do banco. Na mesma operação, foi alvo o ex-sócio de Vorcaro, Augusto Ferreira Lima, que já havia sido preso e liberado com tornozeleira eletrônica na primeira fase da investigação em novembro de 2025. A ação foi autorizada pelo ministro André Mendonça.
Segundo a PF, Augusto Ferreira Lima atuava como interlocutor com Jaques Wagner, sendo figura relevante em temas sensíveis ao grupo econômico. Informações sobre rating, estrutura acionária, o Will Bank, a PEC nº 65/2023, a operação BRB/Master, requerimentos no Senado e a CPI do Master eram enviadas ao senador. Vantagens atribuídas a Wagner incluem viagens em aeronaves particulares vinculadas a Augusto Lima e ao Banco Master em 2023, além de ingressos para um show da cantora Taylor Swift em Los Angeles (EUA), custeados pela Reag Investimentos, no valor de R$ 63 mil.
A investigação também aponta para a negociação de um apartamento de luxo em Salvador. Em novembro de 2024, Wagner teria encaminhado a Augusto Lima o contato do gerente da construtora e detalhes sobre a unidade, cujo valor era de R$ 2,45 milhões. Em maio de 2025, Wagner teria solicitado informações complementares sobre a titularidade do imóvel. Posteriormente, o nome de David Lopes Monteiro, suposto operador ligado a Vorcaro, foi encaminhado como intermediário. A PF identificou ainda repasses de R$ 3,5 milhões de uma empresa dirigida pela prima de Augusto Lima para a BN Financeira, ligada ao núcleo familiar de Jaques Wagner.
Em nota, a defesa de Wagner negou que o senador tenha atuado em favor do Banco Master e ressaltou que ele não é réu nem foi formalmente denunciado por envolvimento com o caso.
Gostou desta notícia?
Entre no nosso grupo do WhatsApp!
Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!
📲 Quero entrar no grupo
Comentários (0)
Deixe seu comentário