FRONTEIRA MÉDICA

Nova tecnologia de transplante revoluciona SUS em Rio Preto

Paciente Rodolfo Chicone após transplante de fígado com máquina de perfusão no Hospital de Base.
Rodolfo Aparecido Chicone, paciente do SUS, se recupera após transplante de fígado com nova tecnologia no Hospital de Base de Rio Preto.

Máquina mantém fígado fora do corpo por mais de 4h, dobrando tempo de viabilidade e gerando esperança a 1,5 mil na fila.

Em um marco inédito para a saúde pública brasileira, o Hospital de Base de São José do Rio Preto (SP) realizou, no sábado, 28 de outubro de 2023, um transplante de fígado utilizando uma tecnologia de ponta que mantém o órgão em pleno funcionamento fora do corpo. A decisão de investir e aplicar essa inovação, custeada integralmente pela instituição, visa revolucionar os transplantes no Sistema Único de Saúde (SUS), oferecendo mais tempo para o procedimento e ampliando as chances de sucesso, o que acende uma luz de esperança para milhares de pacientes que aguardam por um órgão no país.

O paciente Rodolfo Aparecido Chicone, de 39 anos, foi o primeiro a se beneficiar da máquina de perfusão hepática, que preservou seu novo fígado por impressionantes 4 horas e 35 minutos antes da cirurgia. Em um avanço que contrasta com o método tradicional de resfriamento em gelo, que oferece de 10 a 14 horas de preservação, a nova técnica pode estender esse período para até 24 horas, praticamente duplicando a janela para o transplante e garantindo uma avaliação mais detalhada da viabilidade do órgão.

Rodolfo, que se recupera em ritmo acelerado, já consegue caminhar pelos corredores da instituição, demonstrando o impacto positivo do procedimento. "Com essa nova tecnologia, o órgão sofre menos 'estresse', diminuindo significativamente os riscos de complicações pós-cirúrgicas", explica Renato Silva, chefe do setor de transplantes do HB. A técnica mantém o fígado em condições fisiológicas, controlando temperatura, fluxo sanguíneo e oxigenação, diferente do resfriamento extremo que pode danificar as células e encurtar a "vida útil" do órgão.

O Hospital de Base, com a chegada do equipamento, criou o Centro de Manutenção de Órgãos, solidificando seu pioneirismo. A expectativa é que a tecnologia amplie o número de órgãos aproveitados e, assim, reduza o tempo de espera por transplantes. No Brasil, mais de 72 mil pessoas aguardam por um transplante, sendo cerca de 1,5 mil especificamente por um fígado, conforme dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

Horácio Ramalho, diretor executivo da Fundação Faculdade Regional de Medicina de São José do Rio Preto (Funfarme), destaca a complexidade do processo. “Para o órgão chegar, ele passa por um processo longo, que envolve laboratórios, existem equipes voltadas para isso, de retirada, transporte, então existe uma cadeia para chegar ao paciente. Nessa fase final, em que esses órgãos que foram doados em gesto de humanidade, a gente possa aumentar a utilização”, comenta o diretor, ressaltando a importância de maximizar o aproveitamento das doações.

Atualmente, cada procedimento com a máquina custa aproximadamente R$ 50 mil, valor integralmente bancado pelo próprio Hospital de Base. A instituição planeja realizar 15 transplantes com o equipamento para coletar dados clínicos e econômicos robustos, visando subsidiar a possível incorporação da tecnologia ao Sistema Único de Saúde (SUS) – um passo que poderia democratizar o acesso a essa inovação vital. Inicialmente focada em fígados, a tecnologia tem potencial para ser expandida para outros órgãos, como os rins.

Desde a criação do Centro Integrado de Transplantes de Órgãos e Tecidos (Cintrans) em 1990, o Hospital de Base já realizou mais de 5,8 mil procedimentos, incluindo transplantes de fígado, rins, coração, pulmão e medula óssea, consolidando sua trajetória de excelência e inovação na medicina brasileira.

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