MILHARES DE MORTES

Ministro do TCU afirma que falhas na política de câncer causam milhares de mortes evitáveis

Foto do Ministro Augusto Nardes do TCU em entrevista.
Ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União (TCU).

Ministro Augusto Nardes aponta atrasos, falta de prevenção e problemas de governança no atendimento oncológico do SUS como causas de óbitos evitáveis; auditoria do Tribunal de Contas da União identificou fragilidades estruturais.

Milhares de brasileiros morrem anualmente devido a falhas graves e estruturais na política nacional de combate ao câncer. A contundente afirmação é do ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União (TCU), em entrevista ao Poder360. Ele detalhou que atrasos no diagnóstico, carência de políticas preventivas eficazes e problemas de governança no Sistema Único de Saúde (SUS) culminam em mortes que poderiam ser evitadas.

A declaração do ministro ecoa os achados de uma auditoria conduzida pelo próprio TCU sobre a política oncológica. O levantamento apontou que o diagnóstico da doença frequentemente ocorre em estágios avançados, comprometendo as chances de sucesso do tratamento. Adicionalmente, a auditoria revelou fragilidades na coordenação, no monitoramento e no acompanhamento dos pacientes em todo o percurso terapêutico dentro da rede pública.

Um caso emblemático que ilustra a gravidade da situação é o do aposentado Antonio Carlos Striotto Marins. Ele faleceu em maio de 2026 após uma espera de mais de sete meses por um medicamento de ponta contra o câncer, o Keytruda, que já estava previsto no SUS para seu quadro clínico. Apesar de ter direito ao tratamento, Marins precisou acionar a Justiça para ter acesso ao medicamento, enfrentando uma batalha judicial que se estendeu por meses. Quando a medicação finalmente chegou, a doença já estava em estágio avançado, com metástase cerebral. O paciente recebeu apenas três aplicações da imunoterapia antes de morrer.

O ministro Nardes destacou que a judicialização, como no caso de Marins, expõe a necessidade urgente de aprimoramento da gestão pública. "Milhares de pessoas morrem por não ter uma política preventiva e não ter uma governança do Estado brasileiro", declarou o ministro, enfatizando que o problema afeta um número expressivo de indivíduos e não se trata de um caso isolado.

A auditoria do TCU, concluída em 2025, identificou dificuldades no rastreamento de pacientes, na gestão de filas de espera e na integração de informações entre as diversas esferas do sistema de saúde. Problemas na produção de indicadores e no acompanhamento da jornada do paciente foram também apontados. O tribunal verificou que algumas das medidas corretivas determinadas ainda estavam em fase de implementação, o que levou à manutenção do acompanhamento da política nacional de combate ao câncer.

Para Augusto Nardes, a ausência de indicadores confiáveis e a incapacidade de acompanhar os pacientes ao longo do tratamento impedem o país de agir de forma proativa. Em vez de prevenir, o sistema público reage aos casos mais graves, muitas vezes quando as chances de cura já são significativamente reduzidas. "Eu não vejo muitos avanços, mas vou continuar persistindo, perseverando para ver se consigo convencer o governo de que tem que fazer políticas preventivas e fazer uma governança“, afirmou o ministro, demonstrando seu compromisso em buscar melhorias.

A judicialização no acesso a medicamentos de alto custo contra o câncer tem sido um tema recorrente. Relatórios e análises, incluindo reportagens do Poder360 e declarações de personalidades como Gilmar Mendes, apontam que a capacidade de litigar na Justiça, e não apenas a indicação médica, tem definido quem recebe tratamentos essenciais. Essa realidade expõe falhas e desigualdades profundas no sistema de Saúde do Brasil.

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