PROPOSTA EM DEBATE
Economista Felipe Tavares: Fim da escala 6x1 não trará ganhos de produtividade
Felipe Tavares, economista da BGC Liquidez, avalia que a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais e o fim da escala 6x1 podem gerar aumento de custos para empresas e pressão inflacionária, afetando o poder de compra da sociedade.
A proposta de extinguir a escala 6x1 e reduzir a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, atualmente em discussão no Congresso Nacional, não deve entregar os esperados ganhos de produtividade. Esta é a análise do economista Felipe Tavares, da BGC Liquidez, em entrevista concedida nesta quinta-feira, 11/06/2026, ao programa Hora H.
Tavares considera que a premissa de que a mudança na escala de trabalho resultará em aumento de produtividade é excessivamente otimista. "O Brasil enfrenta uma dificuldade considerável em alcançar ganhos de produtividade claros em nossa economia, especialmente em nossa história recente. Há 40 a 50 anos, temos lutado para identificar esses ganhos", explicou.
A lógica por trás do argumento a favor da medida baseia-se em um cálculo matemático: se a mesma quantidade de bens for produzida por menos pessoas, a produtividade sobe. Contudo, para que isso se concretize, seria essencial assegurar que o volume de produção permaneça inalterado sem a necessidade de mais pessoal. "A probabilidade de se obter ganho de produtividade é muito pequena", alertou o economista.
Segundo Tavares, o cenário mais provável é que as empresas sejam forçadas a contratar mais funcionários para manter o nível de produção atual, acarretando um aumento substancial nos custos operacionais. "Haverá um desarranjo completo na estrutura de custos dos empresários, pois precisarão contratar mais pessoas para atingir o mesmo patamar anterior. Isso gerará pressão sobre os preços e um desarranjo inflacionário", advertiu.
Setores mais impactados
O economista apontou que os setores mais vulneráveis a essas mudanças seriam os de serviços, como comércio, hotelaria e shoppings, que operam continuamente. Nesses casos, a cobertura de turnos pode demandar a contratação de um número maior de empregados do que o previsto. Tavares enfatizou que aproximadamente 95% a 97% das empresas do ramo de comércio são micro e pequenas, possuindo margens financeiras limitadas para absorver custos adicionais. "Se o empreendedor não conseguir repassar isso para o preço final, ele corre o risco de ter que fechar as portas", afirmou.
Além do ônus financeiro, Tavares identificou outro desafio: a escassez de mão de obra em áreas como supermercados e varejo. "Muitas atividades já enfrentam dificuldades para encontrar trabalhadores com a jornada de trabalho atual", observou.
O economista também alertou para potenciais repercussões sociais adversas. Ele avalia que a combinação do efeito inflacionário com uma possível retração na produção pode corroer o poder de compra das famílias, resultando em uma situação financeira pior para a população. "É bastante cruel apresentar essa proposta como se houvesse um aumento de produtividade, que as pessoas ganharão o mesmo e trabalharão menos, pois, em muitos casos, isso não será viável", concluiu.
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