SAÚDE PÚBLICA BRASILEIRA
Desigualdade regional limita acesso à quimioembolização no SUS
Dados do SIH/SUS revelam que 74% das internações para tratamento de câncer hepático estão concentradas em apenas cinco estados, forçando pacientes a migrarem.
O acesso à quimioembolização para o tratamento de carcinoma hepático pelo SUS (Sistema Único de Saúde) revela uma profunda desigualdade geográfica, conforme apontado por dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS). O procedimento, que utiliza um cateter conduzido pelas artérias para levar medicamentos diretamente aos vasos que irrigam o tumor, teve 13.599 internações registradas entre 2015 e 2025, evidenciando uma distribuição desigual que impacta diretamente a dignidade e a continuidade do cuidado ao paciente oncológico.
A disparidade regional é marcada pela concentração da infraestrutura de alta complexidade. Enquanto o Sudeste detém 52% dos registros, a região Norte realizou apenas 30 internações em 11 anos, representando 0,2% do total nacional. Em estados como Acre, Amazonas e Amapá, não houve nenhum registro de internação para este procedimento específico no período analisado.
A quimioembolização é uma técnica minimamente invasiva que permite reduzir o fluxo de sangue que alimenta a lesão, sendo essencial para pacientes com câncer primário do fígado ou metástases. Segundo o oncologista Ramon Andrade de Mello, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, a técnica é crucial para o controle da doença, podendo servir como ponte para pacientes que aguardam um transplante. "Ela é menos invasiva que uma cirurgia. O tempo de recuperação tende a ser menor e a qualidade de vida do paciente pode ser melhor", destaca.
A concentração dos serviços reflete a distribuição dos especialistas e centros hospitalares. Cinco estados — São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pernambuco e Paraná — somaram 10.066 internações, ou 74% do total nacional. Lucas Moretti Monsignore, presidente da SOBRICE (Sociedade Brasileira de Radiologia Intervencionista e Cirurgia Endovascular), explica que o cenário atual é reflexo da escassez de radiologistas intervencionistas titulados fora dos grandes eixos.
Para o paciente, essa lacuna na oferta do serviço traduz-se em uma jornada penosa. O levantamento mostra que moradores do Norte precisaram buscar tratamento fora de seus estados de residência, o que impõe desafios logísticos como o custo de transporte, a necessidade de permanência em cidades distantes e o risco à continuidade do acompanhamento médico. O estabelecimento de centros macrorregionais e fluxos formais de encaminhamento é apontado por especialistas como uma necessidade urgente para democratizar o acesso a esse tratamento no SUS.
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