SAÚDE E RISCOS
Uso indevido de testosterona eleva risco de infarto, AVC e morte
Estudo de larga escala revela que homens que utilizam o hormônio sem indicação clínica enfrentam quase o dobro de chances de sofrerem eventos cardiovasculares graves.
Homens que utilizam testosterona sem a devida indicação médica possuem um risco quase duas vezes maior de sofrerem eventos cardiovasculares graves — como infarto, acidente vascular cerebral (AVC), parada cardíaca ou óbito — em comparação aos pacientes que realizam o tratamento por necessidade clínica comprovada.
A conclusão é do maior estudo já conduzido sobre o tema, publicado recentemente na revista eBioMedicine, parte do grupo Lancet. A pesquisa acompanhou usuários por até uma década e demonstrou que a mortalidade por qualquer causa praticamente dobrou entre aqueles que consumiram o hormônio sem diagnóstico de hipogonadismo.
Diferenciação clínica
A reposição de testosterona possui critérios claros: o hipogonadismo, condição caracterizada pela produção insuficiente do hormônio por falhas nos testículos ou na hipófise. Nesses casos, o tratamento é considerado seguro, conforme atestado por ensaios clínicos robustos, como o TRAVERSE, que não identificou aumento de eventos cardíacos em pacientes que realmente necessitam do acompanhamento.
O alerta da ciência recai sobre o terço dos usuários que busca o hormônio sem respaldo diagnóstico. Para realizar a comparação, os pesquisadores analisaram dados de 358.957 homens, pareando 113.554 duplas com características similares, como peso, idade e histórico de hipertensão, garantindo a integridade dos resultados.
Mecanismos de risco
O uso indiscriminado provoca concentrações suprafisiológicas, desencadeando efeitos deletérios no organismo. Conforme explica Fernando Valente, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o excesso hormonal desregula a produção endógena e impõe uma sobrecarga ao sistema cardiovascular.
Elzo Mattar, do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), detalha que o hormônio em excesso estimula a medula óssea a produzir mais glóbulos vermelhos, tornando o sangue mais viscoso. "O sangue mais grosso favorece a formação de trombos. A viscosidade aumentada, aliada a processos inflamatórios nas artérias e à hipertensão, forma uma bomba-relógio para o sistema circulatório", alerta o especialista.
Além dos danos imediatos, o abandono da produção natural pelo organismo pode levar à infertilidade e à dependência das aplicações externas. Diante das evidências, a comunidade médica reforça que a testosterona não é um suplemento de rotina e que seu uso estético ou sem justificativa clínica representa um risco evitável e severo à dignidade e à integridade física do indivíduo.
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