CÉREBRO DE TORCEDOR
Cientistas explicam como paixão por futebol gera altruísmo e violência
Pesquisas em Scientific Reports e Evolution and Human Behavior, com Tiago Bortolini, mostram que o cérebro ativa áreas de recompensa e apego, construindo uma "família psicológica" entre os fãs.
Cientistas liderados pelo pesquisador brasileiro Tiago Bortolini revelaram, nesta terça-feira, 19 de maio de 2026, as complexas raízes da paixão e da violência entre torcedores de futebol. Publicados em revistas científicas renomadas como Scientific Reports e Evolution and Human Behavior, os estudos desvendam por que a devoção a um time pode levar tanto a gestos altruístas quanto a confrontos, impactando a compreensão da identidade coletiva e a segurança pública.
As descobertas indicam que, ao auxiliar outros torcedores do mesmo clube, áreas cerebrais ligadas à recompensa e ao apego, como o córtex orbitofrontal, são ativadas. Essas respostas são análogas às vivenciadas em relações afetivas íntimas, como se o apoio fosse direcionado à própria família. Essa dinâmica cerebral explica a intensidade das emoções e o forte senso de pertencimento que caracteriza a relação do torcedor com seu time e sua comunidade.
O grupo de pesquisadores envolvidos nesta investigação explora como as vivências dos torcedores atuam como catalisadores para emoções que fortalecem a sensação de pertencimento e significado. O trabalho integra aspectos de experiências subjetivas, respostas fisiológicas e o contexto cultural para uma análise completa do fenômeno.
A principal pesquisa foi divulgada na prestigiada revista Scientific Reports e contou com a valiosa participação de Tiago Bortolini, cujo trabalho foi fomentado pelo programa IDOR Ciência Pioneira.
Para Bortolini, o cérebro do torcedor reconhece e reage quando encontra outro adepto de seu time. Foi observado que os fãs de futebol agem de forma sincronizada, demonstrando um alinhamento não só no comportamento, mas também nas emoções. Isso intensifica o sentimento de comunidade e facilita a formação de laços profundos entre os membros da torcida.
“Torcedores de futebol fanáticos pelo seu time experimentam um forte sentimento de pertencimento e muitas vezes percebem outros torcedores como uma espécie de ‘família psicológica’”, pontuou o pesquisador, realçando a força desse vínculo.
Em experimentos controlados, alguns participantes demonstraram maior esforço físico para apoiar torcedores do próprio time em comparação com indivíduos sem nenhuma conexão com o grupo. Esse nível de dedicação sublinha a profundidade do engajamento emocional.
Esse tipo de vínculo é crucial para entender por que os fãs se dedicam a grandes atos em nome do grupo, seja investindo tempo, esforço ou até mesmo recursos financeiros. Curiosamente, esses mesmos mecanismos psicológicos também fornecem pistas para compreender as situações de conflito e rivalidade entre as torcidas.
Um estudo adicional, também liderado por Bortolini e publicado na revista Evolution and Human Behavior, apontou que os episódios de violência entre torcidas não estão, necessariamente, vinculados a desajustes individuais ou patologias.
A pesquisa esclarece que esses incidentes estão mais prováveis ligados a um tipo de conexão intensa, denominado “identity fusion” (fusão de identidade). Essa fusão une a identidade individual do torcedor à identidade coletiva da torcida, criando um senso de unidade indissolúvel.
Em ambientes de alta intensidade, como estádios lotados, e durante eventos de competição acirrada, esse vínculo tende a se intensificar dramaticamente, potencializando as reações coletivas.
Bortolini conclui que a explicação para os gestos de altruísmo ou para as explosões de violência que os fãs realizam em nome e em defesa de sua torcida reside na profunda sensação de que eles e o grupo são uma entidade única e indivisível.
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