VERDADE HISTÓRICA

CEMDP avalia relatório que aponta assassinato de JK

Imagem de Juscelino Kubitschek e seu Opala
Juscelino Kubitschek ao lado de seu Opala, veículo envolvido no acidente de 1976. A CEMDP reexamina o caso.

Documento questiona versão oficial de acidente e revisa morte de Juscelino Kubitschek em 1976. A decisão final ainda está em análise e aguarda contato com familiares.

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) avalia um relatório contundente que aponta para o assassinato do ex-presidente da República Juscelino Kubitschek, desafiando a versão oficial de acidente que predominou por décadas. O documento, elaborado pela relatora Maria Cecília Adão e apresentado ao colegiado no dia 01 de abril de 2026, revisa os eventos da morte de JK em 22 de agosto de 1976, durante a ditadura militar. A reabertura da investigação, iniciada no início de 2025, busca lançar luz sobre um dos períodos mais sombrios da história brasileira, oferecendo a chance de justiça e dignidade à memória de um líder político perseguido.

O relatório, que examina as circunstâncias da morte de Juscelino e de seu motorista Geraldo Ribeiro, conclui que o ex-presidente foi vítima de assassinato. Atualmente, o parecer da relatora Maria Cecília Adão está em análise pelos membros da CEMDP e ainda não foi votado, conforme informado pelo Ministério dos Direitos Humanos nesta sexta-feira, 08 de maio de 2026. A deliberação final só ocorrerá após o contato com os familiares das vítimas, um passo crucial para garantir a participação e o direito à informação dos envolvidos.

A CEMDP, em nota oficial, reiterou seu compromisso com a busca por memória, verdade e justiça. O pedido de reabertura do caso JK foi protocolado logo após a reinstalação da comissão, por solicitação de Gilberto Natalini e Ivo Patarra, e pautado na 2ª Reunião Ordinária, realizada em novembro de 2024. Desde então, a relatora Maria Cecília Adão tem trabalhado em articulação com pesquisadores, mantendo os familiares informados sobre o processo de análise.

A relevância do caso JK transcende a questão de um acidente isolado, inserindo-se no contexto da ditadura militar, período em que Juscelino Kubitschek foi considerado um perseguido político. O regime de Castello Branco cassou seus direitos políticos por cerca de dez anos, motivado, em parte, pela grande popularidade do ex-presidente, que era visto como favorito para assumir a chefia do Executivo em 1965, aproximadamente um ano após o golpe militar.

A versão oficial da morte de JK, em 22 de agosto de 1976, sempre foi a de um acidente automobilístico. Segundo essa narrativa, no quilômetro 165 da Via Dutra, próximo a Resende (RJ), o Chevrolet Opala em que o ex-presidente e Geraldo Ribeiro viajavam teria sofrido uma leve batida com um ônibus. Esse impacto inicial faria o carro perder o controle, invadir a pista contrária e colidir de frente com um caminhão que seguia para São Paulo. JK e Geraldo Ribeiro morreram no local, enquanto o motorista do caminhão, Ademar Jahn, sobreviveu.

No entanto, essa versão sempre foi alvo de controvérsias e divergências entre diferentes comissões de investigação. Em dezembro de 2013, a Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, da Câmara de São Paulo, concluiu em seu “Relatório JK” que o ex-presidente e seu motorista foram vítimas de “conspiração, complô e atentado político”. O documento paulistano sugeria que Geraldo Ribeiro perdeu o controle do Opala após ser atingido por um tiro na cabeça. O motorista do caminhão, Ademar Jahn, teria relatado à comissão ter visto Geraldo Ribeiro “com a cabeça caída entre o volante e a porta do automóvel”.

Em contraste, a Comissão Nacional da Verdade (CNV), instituída em 2014 pela então presidente Dilma Rousseff (PT), contrariou veementemente a tese de assassinato. O relatório da CNV afirmou: “Não há documentos, laudos e fotografias trazidos para a presente análise, qualquer elemento material que, sequer, sugira que o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira e Geraldo Ribeiro tenham sido assassinados, vítimas de homicídio doloso.” A CNV chegou a analisar um fragmento metálico encontrado no crânio de Geraldo Ribeiro durante uma exumação em 1996, mas concluiu que era um cravo metálico do caixão, e não um projétil.

A atual reavaliação pela CEMDP baseia-se em elementos que já eram públicos, como os coletados no âmbito do Inquérito do Ministério Público Federal nº 1.30.008.000307/2013-79, além de novos dados levantados durante o trabalho da própria comissão. Os demais elementos serão divulgados quando a deliberação for concluída, reforçando o compromisso da CEMDP com a transparência e o diálogo com as famílias de vítimas da violência de Estado, que continuam a ser protagonistas na incessante busca por memória, verdade e justiça.

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