FISCALIZAÇÃO DE DESMATAMENTO

Câmara aprova PL que muda fiscalização de desmatamento, produtor rural pode prestar esclarecimentos antes de punição

Fachada da Câmara dos Deputados.
Câmara dos Deputados aprova projeto que altera fiscalização de desmatamento.

Texto aprovado pela Câmara dos Deputados e que agora segue para o Senado Federal altera a Lei nº 9.605/1998, permitindo ao produtor rural se defender antes de sanções. Mudança é vista com cautela por ambientalistas.

A Câmara dos Deputados aprovou na última terça-feira (19) o PL 2564/2025, que altera as regras de fiscalização de desmatamento no Brasil. A decisão, tomada por decisão dos parlamentares, garante ao produtor rural o direito de prestar esclarecimentos sobre indícios de desmatamento ilegal em sua propriedade antes da aplicação de medidas punitivas. O projeto, que altera a Lei nº 9.605 de 1998, segue agora para análise no Senado Federal e, posteriormente, para sanção do Presidente da República. A matéria importa por impactar diretamente a dinâmica entre a fiscalização ambiental e a atividade produtiva rural, buscando um equilíbrio entre a proteção do meio ambiente e a segurança jurídica para o setor.

O texto aprovado impede que embargos a propriedades rurais sejam baseados exclusivamente em detecções remotas, realizadas por meio de sensoriamento por satélite. Segundo o autor do PL, Lucio Mosquini (PL-RO), a proposta visa “corrigir injustiças” e “garantir segurança jurídica para o produtor”. Essa iniciativa surge semanas após a suspensão de mudanças no Conselho Monetário Nacional (CMN) que condicionavam o acesso ao crédito rural a verificações ambientais do Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes). Tais mudanças foram alvo de críticas por entidades do agronegócio, como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), e a aprovação do PL é vista como uma resposta a essa conjuntura.

Para Leonardo Munhoz, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a alteração busca sanar iniquidades decorrentes de decisões pautadas unicamente por imagens de satélite. “O sensoriamento remoto é apenas uma foto, não conta a história da propriedade. O produtor pode estar compensando o desmatamento em outros pontos do terreno, apenas pelo satélite não dá para averiguar isso”, explicou. Ele ressalta a importância do cruzamento de dados de sensoriamento remoto com bases de dados nacionais, estaduais e municipais para maior efetividade na fiscalização. Munhoz destaca que, atualmente, produtores notificados via Prodes enfrentam dificuldades para recorrer a tempo de acessar linhas de crédito rural, e a nova norma pode oferecer um “respiro” nesse sentido. Contudo, o pesquisador pondera que o processo pode se tornar mais demorado e custoso, especialmente em casos que exijam fiscalização in loco para comprovar autuações via satélite.

O pesquisador da FGV relaciona o PL a uma resposta à Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 743. Essa ação, protocolada pelos partidos Rede Sustentabilidade e PSOL, solicita ao Supremo Tribunal Federal (STF) que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) seja autorizado a suspender imediatamente o Cadastro Ambiental Rural (CAR) de propriedades com desmatamento ilegal identificado por sistemas como Prodes e Deter Não Floresta.

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) comemorou a aprovação como um “avanço fundamental para garantir segurança jurídica aos produtores rurais”. Em declaração à CNN, o presidente da FPA, Pedro Lupion (Republicanos-PR), afirmou que o projeto corrige distorções ao impedir a aplicação de medidas cautelares, embargos ou restrições de forma antecipada e automática, assegurando os princípios do contraditório e da ampla defesa garantidos pela Constituição.

Por outro lado, a medida gerou críticas de entidades ambientalistas. A WWF (World Wide Fund for Nature) manifestou preocupação, alegando que o PL 2564/2025 “cria obstáculos à aplicação de medidas administrativas cautelares ambientais e dificulta instrumentos fundamentais de fiscalização, como os embargos remotos, que tiveram papel relevante na redução do desmatamento na Amazônia”. O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, lamentou a decisão, afirmando que ela “priva o uso de uma ferramenta do Estado para regular o crédito rural”. Munhoz reitera sua preocupação de que a medida possa aumentar o tempo de processos em aberto, o que, em sua visão, “abre espaço para desmatamento”. Lupion, contudo, defende que a alteração não enfraquece a fiscalização, mas corrige injustiças e assegura que punições sejam aplicadas mediante cruzamento de dados.

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