EDUCAÇÃO SAQUEADA

Alexandre de Moraes decreta prisão de Thiago Rangel

Deputado Thiago Rangel preso durante Operação Unha e Carne
Em áudios, deputado Thiago Rangel dá ordens na Educação e negocia cargos para traficante, diz PF

Parlamentar suspeito de chefiar fraudes na Educação, negociar vagas para traficante e lavar dinheiro.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a prisão preventiva do deputado estadual Thiago Rangel (Avante) nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026. A decisão, fundamentada em vasta investigação da Polícia Federal no âmbito da Operação Unha e Carne, expõe um complexo esquema de desvio de recursos da Secretaria Estadual de Educação, negociação de cargos e lavagem de dinheiro, com conexões a um traficante de alta periculosidade. O caso choca a sociedade ao desvelar a instrumentalização da educação pública para interesses privados e criminosos, minando a confiança nas instituições e afetando diretamente a qualidade do ensino e a dignidade de milhares de estudantes e servidores.

Áudios e mensagens obtidos pela Polícia Federal durante a Operação Unha e Carne revelam o deputado estadual Thiago Rangel atuando diretamente sobre cargos estratégicos da Secretaria Estadual de Educação. As evidências também apontam para a negociação de vagas na área para pessoas ligadas a Arídio Machado da Silva Júnior, conhecido como “Júnior do Beco”, identificado pela PF como traficante de alta periculosidade. Tais diálogos, que o RJ1 teve acesso, indicam um padrão de controle político e apropriação indevida da máquina pública.

A PF suspeita que Thiago Rangel chefiava um elaborado esquema de fraudes em contratos de obras e serviços da rede estadual de ensino. Além disso, a investigação aponta para lavagem de dinheiro envolvendo diversas empresas e uma rede de postos de combustíveis, complexificando o cenário de corrupção e desvio de verbas destinadas à população.

Em um dos áudios mais comprometedores, atribuído ao deputado e enviado à então diretora regional de Educação do Noroeste Fluminense, Júcia Gomes de Souza Figueiredo, Thiago Rangel emite ordens claras sobre a gestão da estrutura educacional. “Júcia, continua aí do jeito que você tem que estar. Tudo que acontecer dentro da regional eu quero saber. Eu não tenho que dar satisfação a ninguém. O deputado sou eu. A indicação é minha e quem manda sou eu”, teria dito o parlamentar.

Segundo a Polícia Federal, esta mensagem foi enviada em agosto de 2024 e extraída do celular de Júcia Gomes, que também foi presa durante a Operação Unha e Carne. À época, a servidora comandava a Regional Noroeste da Seeduc, responsável por 57 escolas estaduais em 13 cidades do Norte e Noroeste Fluminense, gerenciando mais de 3.200 servidores. Este controle político minava a autonomia e a eficiência da gestão educacional, transformando a pasta em um balcão de negócios.

PF vê controle político e instrumentalização

A investigação descreve a conversa como um dos pilares que apuram possíveis fraudes em contratos de obras em escolas estaduais. Para os investigadores, o áudio demonstra que Júcia Gomes teria sido indicada diretamente por Thiago Rangel, mantendo uma relação de subordinação política ao deputado dentro da estrutura da Secretaria de Educação. A servidora é apontada como uma espécie de “longa manus” do parlamentar, agindo como extensão operacional dentro do órgão público e exercendo função “vital” para o funcionamento do esquema criminoso.

Na decisão que autorizou a prisão preventiva do deputado, o ministro Alexandre de Moraes reproduz os argumentos da Polícia Federal e afirma que os elementos apontam para a “instrumentalização” da Secretaria Estadual de Educação em benefício do grupo investigado. Este uso indevido de uma pasta tão sensível representa um grave ataque à cidadania e aos direitos básicos da população.

Transferência suspeita e lavagem de dinheiro

Outro diálogo revelado pela PF, ocorrido em outubro de 2024, destaca uma transferência de R$ 100 mil da empresa VAR Construtora para a E. H. Almeida de Souza Casas de Festas, cujo comprovante foi encaminhado por Júcia Gomes a Thiago Rangel. Logo depois, ela reenviou mensagens afirmando: “Já mandei 100”; “amanhã vai o resto”.

Para a Polícia Federal, essa movimentação financeira reforça as suspeitas de lavagem de dinheiro e circulação de recursos desviados de contratos públicos. A VAR Construtora, ligada a obras em escolas estaduais, não possuía funcionários registrados na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), o que, segundo a PF, eleva o risco de fraude. A empresa destinatária dos valores seria utilizada para a movimentação financeira ilícita do grupo investigado, camuflando a origem do dinheiro e perpetuando o ciclo de corrupção.

Ligação com o tráfico de drogas

Um conjunto ainda mais alarmante de mensagens tenta demonstrar a relação de Thiago Rangel com Arídio Machado da Silva Júnior, o “Júnior do Beco”, descrito pela PF como traficante de “alta periculosidade” com antecedentes por homicídios e tráfico de drogas. As conversas foram extraídas do celular de Fábio Pourbaix Azevedo, apontado como braço direito de Thiago Rangel e também preso na operação.

A investigação sugere que Thiago Rangel teria reservado vagas de “auxiliar de serviços gerais” na área da Educação para indicações feitas por “Júnior do Beco”. Fábio Pourbaix chegou a pedir o contato do traficante ao deputado para organizar as indicações, e Thiago Rangel, em seguida, envia um telefone salvo como “Junior Beco”.

De acordo com os investigadores, o deputado teria afirmado possuir oito vagas disponíveis na Educação, uma das quais destinada a um indicado do traficante. Em um dos áudios divulgados, uma mulher identificada como Gleice Maria Batista da Silva cobra a nomeação prometida: “Thiago Rangel, aqui é Gleice, irmã de Juninho do Beco. Eu fui fazer uma entrevista em agosto ou setembro e até hoje não me deram uma posição. Meu irmão pediu para eu te ligar para ver o que estava acontecendo.” A PF confirmou posteriormente que Gleice é irmã de “Júnior do Beco”.

Esses diálogos indicam não apenas a distribuição política de cargos públicos, mas também o uso da estrutura da Educação para atender interesses pessoais e alianças criminosas, além de uma proximidade preocupante entre o parlamentar e pessoas ligadas ao tráfico. As conversas foram incluídas no capítulo “Observações Finais” da Operação Postos de Midas, reforçando possíveis conexões entre o deputado e crimes violentos e fundamentando o argumento de risco à ordem pública e de continuidade das atividades criminosas na decisão do STF.

Influência em outros órgãos públicos

A investigação também revelou uma planilha encontrada no computador de Rui Bulhões, ex-chefe de gabinete do então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar. O documento listava deputados estaduais, os órgãos sob influência política de cada um e novos cargos ou estruturas desejadas. Thiago Rangel, por exemplo, aparece com influência sobre o Detran de Campos e o IPEM de Campos, além de 15 vagas na Alerj. Também constam pedidos relacionados ao Detro, Fundação Leão XIII, Fundação para a Infância e Adolescência (FIA) e vagas na Secretaria Estadual de Trabalho.

A PF afirma que Thiago Rangel teria utilizado sua influência sobre o IPEM em benefício da própria rede de postos de combustíveis, com indícios de corrupção ativa e passiva envolvendo fiscais do órgão. Este cenário demonstra uma capilaridade da suposta rede criminosa, que se estendia por diversas esferas do poder público, comprometendo a transparência e a ética na administração.

Mesmo após a prisão, Rangel ainda aparecia como líder do partido Avante na Alerj e teve sua presença registrada em uma das sessões. No entanto, a Mesa Diretora da Alerj já se reuniu, na semana passada, e deliberou sobre o afastamento do parlamentar e destituição de seu gabinete, enquanto perdurar a decisão judicial de prisão preventiva. A Casa estuda formas para convocar o suplente, visando a restituir o quórum, pois não há previsão legal para essa situação.

O que dizem os citados

A defesa de Thiago Rangel, por meio de nota, reafirmou a inocência do parlamentar, alegando que as mensagens foram tiradas de contexto e que ele não faz parte de organização criminosa, nem manteve contato ilícito com membros de facção. As defesas de Fábio Poubaix e Júcia Gomes não se manifestaram até o fechamento desta edição.

A Secretaria Estadual de Educação informou que está realizando uma revisão administrativa de todos os procedimentos relacionados às obras de manutenção nas escolas da rede, buscando restabelecer a integridade dos processos. A Alerj, por sua vez, garantiu que o deputado permanece afastado e que eventuais menções a ele em materiais oficiais após seu afastamento são erros materiais.

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