CRIME MIGRATÓRIO
Polícia Federal desarticula rede de coiotes que trazia cubanos ao Brasil pela Amazônia
Operação Conexão Norte mira grupo que cobrava até US$ 10 mil por pessoa. Migrantes enfrentam condições precárias e riscos na travessia.
A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira, 11 de junho de 2026, a Operação Conexão Norte para desarticular uma rede criminosa responsável por promover a migração ilegal de cidadãos cubanos para o Brasil através de uma rota perigosa pela Amazônia. A decisão, tomada em resposta ao aumento expressivo de entradas irregulares, busca coibir a exploração e garantir a segurança dos migrantes. A operação importa para o Brasil ao evidenciar a vulnerabilidade de indivíduos em busca de melhores condições de vida e expô-los aos perigos de redes de coiotes que lucram com a desgraça alheia.
Uma rota de migração irregular de cubanos pela Amazônia, que tem levado a um número crescente de pessoas em situação de vulnerabilidade, está sob investigação das autoridades brasileiras. A entrada tem ocorrido de diferentes formas: alguns cruzam a pé a ponte que liga Lethem, na Guiana, a Bonfim, em Roraima, enquanto outros recorrem a barcos clandestinos para cruzar o rio que separa os dois países.
No último dia 11, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) já havia resgatado 225 cubanos em situação irregular em abordagens na BR-401. Em comparação, os números de 2024 e 2025 registraram cerca de 60 cubanos flagrados por ano. No mesmo dia, a Polícia Militar de Roraima (PMRR) resgatou mais 35 cubanos que faziam a travessia a pé pela ponte dos Macuxis do Cantá, na região Norte de Roraima, em direção a Boa Vista. Este foi o segundo resgate em menos de três dias.
A situação em Cuba é descrita como crítica. “Cuba tem muitos problemas. Não tem luz, água, gás, comida, os preços estão altos e o salário não alcança”, relatou a uma servidora cubana que busca se regularizar em Boa Vista. O país caribenho tem enfrentado uma crise sem precedentes, exacerbada por um bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos neste ano, que resultou em apagões e redução de atendimentos médicos. A jovem, de 29 anos, planeja trabalhar em Florianópolis para juntar dinheiro e trazer seus filhos para o Brasil.
Segundo informações da polícia, os coiotes cobram cerca de US$ 10 mil (aproximadamente R$ 51 mil) por pessoa para organizar todo o percurso. Isso inclui transporte terrestre, travessia de fronteira, hospedagens temporárias e passagens aéreas dentro do Brasil. Desde o início do ano, 16 coiotes foram presos pela PRF.
Em resposta a este fluxo migratório, a Polícia Federal deflagrou a Operação Conexão Norte, visando desarticular o grupo investigado pelo crime de promoção de migração ilegal. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Boa Vista e Bonfim, mas ninguém foi preso na ocasião. A investigação identificou uma rede coordenada envolvendo brasileiros, guianenses e cubanos.
“Estamos diante de uma crise humanitária. São pessoas exploradas economicamente durante toda a viagem”, descreveu um representante da PRF em Roraima. A experiência de Beatriz, uma das migrantes, foi classificada como “horrível”, com a promessa de exploração econômica por parte dos coiotes.
Geralmente, o trajeto começa com um voo de Havana para Georgetown, seguido por um percurso de carro até a fronteira em Lethen/Bonfim. A BR-401, que liga Bonfim a Boa Vista, torna-se o corredor seguinte. A estratégia adotada pela rede criminosa envolve o uso de veículos alugados, que embarcam grupos de até 12 pessoas em carros projetados para cinco ocupantes, seguindo em direção à capital roraimense. Esse transporte pode render aproximadamente US$ 300 por passageiro, gerando entre R$ 10 mil e R$ 15 mil por viagem, o que atrai muitos para a atividade, especialmente brasileiros sem antecedentes em redes migratórias, embora alguns tenham histórico de contrabando e tráfico.
A tentativa de driblar a fiscalização aumenta o perigo. Ao perceberem a presença de viaturas, motoristas costumam abandonar a BR-401 e entrar em estradas vicinais de terra em alta velocidade, resultando em acidentes e mortes. Em 2025, dois cubanos faleceram após o capotamento de um veículo em fuga. Recentemente, para escapar da PRF, os coiotes passaram a abandonar os migrantes cerca de 10 quilômetros antes de Boa Vista.
A estrutura da rede vai além da fronteira. Na segunda-feira, 8 de junho de 2026, a PRF encontrou 61 cubanos alojados em uma casa em Cantá (RR), utilizada como ponto de apoio. Outras 47 pessoas, incluindo adultos, idosos e crianças, foram encontradas em condições físicas adversas, com relatos de estarem sem se alimentar há pelo menos dois dias. Esta operação resultou no maior resgate humanitário já registrado pela corporação em Roraima, com 108 cidadãos cubanos localizados em condições degradantes. Cinco brasileiros suspeitos de atuarem como coiotes foram presos em flagrante.
As vítimas são encaminhadas para abrigos da Operação Acolhida, que já presta atendimento a migrantes venezuelanos. O número de cubanos solicitando refúgio no Brasil tem crescido: foram 41,9 mil pedidos em 2025, quase o dobro de 2024 (22,3 mil), e 13,4 mil até agora em 2026. A geografia da região, com a proximidade entre Cuba, Guiana e Suriname, facilita a oferta de voos comerciais. A fronteira entre Brasil e Guiana possui trechos vulneráveis e é conectada por rodovia asfaltada à capital roraimense. Uma rota alternativa envolve voar para o Suriname e entrar no Brasil pelo Amapá. Uma vez em território brasileiro, os migrantes utilizam documentos de identificação para adquirir passagens aéreas, geralmente com destino ao Sudeste e Sul do país.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública informa que monitora os fluxos migratórios e atua, em articulação com outros órgãos, no enfrentamento ao contrabando de migrantes e à atuação de grupos criminosos. As embaixadas de Cuba e da Guiana, bem como o Itamaraty, não comentaram o caso.
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