SEGURANÇA PÚBLICA
Fernandinho Beira-Mar culpa presídios federais por fortalecer facções, diz nova série do Globoplay
Em entrevista inédita, narcotraficante aponta prisões federais como “fábricas de maluco”. Assista no Globoplay a partir de 30/04/2026.
O narcotraficante Fernandinho Beira-Mar, considerado uma das maiores lideranças do Comando Vermelho na América Latina, fez uma revelação impactante: atribui diretamente aos presídios federais a expansão e o fortalecimento das principais facções criminosas, como o Comando Vermelho e o PCC, por todo o Brasil. A declaração surge em uma entrevista inédita para a nova série documental do Globoplay, "Territórios - Sob o Domínio do Crime", que estreia nesta quinta-feira, 30 de abril de 2026. A série, fruto de mais de um ano de investigação jornalística, busca desvendar as complexas raízes da violência urbana e o avanço do crime organizado, impactando profundamente a segurança e a dignidade da sociedade brasileira.
A nova série de seis episódios do Globoplay estabeleceu um ambicioso objetivo: discutir o avanço das facções criminosas pelo País e os desafios crescentes da segurança pública, fugindo dos maniqueísmos superficiais e aprofundando o debate muitas vezes fragmentado pela urgência do jornalismo diário. Os dois primeiros episódios apresentados à imprensa demonstram que essa meta foi, de fato, alcançada.
Com um trabalho jornalístico de mais de um ano, que incluiu imagens inéditas, relatos exclusivos e centenas de entrevistas, o documentário expõe como organizações como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital passaram a exercer uma influência estrutural na economia e na política nacional, consolidando seu poder a partir do domínio de vastos territórios. Essa dominação territorial não apenas reconfigura o mapa do crime, mas também redefine as dinâmicas sociais e econômicas de comunidades inteiras, submetendo cidadãos a um estado de insegurança constante e minando a autoridade estatal.
“Foi um esforço gigante”, afirmou Fátima Baptista, produtora executiva da série e gerente de Inovação e Projetos Especiais da Globo. Ela ressaltou o desejo de “sair do lugar comum, do maniqueísmo que normalmente acompanha esse tema, aquele do ‘bandido bom é bandido morto’ versus ‘vítima da sociedade’; queríamos realmente nos aprofundar no assunto e mostrar os mais diferentes pontos de vista sobre a questão”.
O primeiro episódio dedica-se à Operação Contenção, deflagrada em outubro do ano passado pelas polícias Civil e Militar nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. A ação policial, a mais letal da história do Estado, resultou em 122 mortes, incluindo cinco policiais. A chocante imagem de dezenas de corpos enfileirados na entrada das comunidades repercutiu mundialmente, revelando a brutalidade do conflito e o custo humano da guerra contra o crime organizado.
O episódio reconstrói detalhadamente a operação, que teve início nas primeiras horas da madrugada de uma terça-feira, 28 de outubro de 2025, e se estendeu por mais de 24 horas. Com imagens exclusivas, a série mostra policiais deixando seus quartéis e adentrando as comunidades. Fica evidente, em muitos momentos, que os agentes não tinham clareza sobre a resistência que enfrentariam, nem uma estratégia definida de ocupação ou combate. Um dos policiais entrevistados sintetiza a experiência: “Foi um festival de improviso e amadorismo”.
Fátima Baptista explicou a obtenção das imagens: “Como já estávamos trabalhando na produção da série na época e tínhamos o objetivo de mostrar de perto a realidade do enfrentamento às facções, negociamos com as autoridades policiais a utilização de imagens de câmeras corporais e de equipamentos instalados nos blindados das polícias. Além disso, contamos também com imagens produzidas por jornalistas freelancers que acompanharam a operação”. Ela conclui: “As imagens falam por si”.
O Impacto do Sistema Prisional: CV e o PCC
O terceiro episódio explora o sistema prisional como berço e pilar fundamental para a sustentação e expansão do Comando Vermelho e do PCC. É neste contexto que surge a entrevista inédita com Beira-Mar, gravada no Presídio Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde ele cumpria uma pena que supera os 300 anos. Atualmente, Fernandinho Beira-Mar está detido em Catanduvas, no Paraná.
Na entrevista, Beira-Mar, com sua perspectiva única de dentro do sistema, defende que a própria criação dos presídios federais impulsionou a disseminação do CV e do PCC para outros Estados do Brasil. Ele descreve as prisões como “fábricas de fazer maluco”, onde os detentos passam “23 horas por dia em um cubículo, olhando para a parede”. Contudo, contraditoriamente, ele assegura que foi justamente o convívio de lideranças do crime organizado de diferentes Estados nesses presídios federais que permitiu a articulação e a consequente expansão das facções por todo o território nacional, transformando o isolamento em uma rede criminosa mais potente.
“O documentário se propõe a promover um amplo debate sobre segurança pública”, reiterou Fátima. Ela justificou a inclusão de Beira-Mar: “Diante da complexidade do tema, consideramos fundamental ouvir todos que tenham informações sobre como chegamos ao ponto atual de insegurança. Fernandinho Beira-Mar, por exemplo, fez parte tanto da construção do crime organizado no País, quanto da atual situação que vivemos, e sua voz oferece uma dimensão crucial para a compreensão do problema.”
Outros temas da série
Os demais episódios da série aprofundam-se em outras facetas do crime organizado. O segundo episódio aborda a corrida armamentista e o papel dos fuzis na dominação territorial das facções, resultando na intensificação da violência urbana que afeta a vida de tantos. O quarto revela como o crime organizado transcendeu fronteiras, infiltrando-se em terras indígenas e na economia legal, corroendo as estruturas formais. O surgimento das milícias e a transformação do controle territorial em um lucrativo negócio é o foco do quinto episódio, expondo novas formas de exploração e poder. Por fim, o sexto e último episódio examina as intricadas relações entre o crime e a política, mostrando como essas esferas podem se entrelaçar, comprometendo a governança e a justiça.
Marcio Sternick, produtor executivo da série e diretor de Jornalismo da Globo no Rio de Janeiro, enfatizou a gravidade da situação: “As facções vivem um novo momento no Brasil. A droga não é mais a única fonte de renda delas. É o controle de territórios que tem garantido a esses grupos um poder sem precedentes, a ponto de representar uma ameaça real à soberania do próprio Estado e à tranquilidade de seus cidadãos”.
A série documental "Territórios – Sob o Domínio do Crime" tem direção de Gustavo Gomes, que também assina o roteiro com Antonia Martinho; reportagem de Paulo Renato Soares, Leslie Leitão e Mahomed Saigg; direção de fotografia de Lucas Louis e produção executiva de Marcio Sternick, Fátima Baptista e Clarissa Cavalcanti. Os seis episódios já estão disponíveis na plataforma de streaming do Globoplay, convidando o público a uma reflexão profunda sobre as raízes da violência no Brasil.
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