ATIVISTA DETIDA
Brasileira detida por Israel relata espancamentos e humilhações em flotilha para Gaza
Beatriz Moreira, 23, denuncia agressões e maus-tratos por soldados israelenses após interceptação de barco humanitário. Outros brasileiros também foram deportados.
A ativista brasileira Beatriz Moreira, 23, denunciou ter sido espancada e humilhada por soldados israelenses durante sua detenção em águas internacionais. Ela integrava uma flotilha de ajuda humanitária com destino à Faixa de Gaza e foi detida na segunda-feira, 18 de maio de 2026. Membro do Movimento dos Atingidos por Barragens no Brasil, Beatriz estava em um dos barcos interceptados pela Marinha de Israel.
Beatriz e mais de 400 participantes da missão foram presos pelas forças israelenses e posteriormente deportados para a Turquia. Entre os detidos, estavam outros três brasileiros que chegaram a Istambul na quinta-feira, 21 de maio. Todos têm previsão de retorno ao Brasil na terça-feira, 26 de maio.
Natural de Belém (PA), Beatriz Moreira atuou como liderança na Cúpula dos Povos, evento que integrou as discussões da COP30, a conferência do clima da ONU realizada na capital paraense em novembro de 2025. Seu envolvimento em causas sociais e ambientais antecede a participação na flotilha.
Segundo informações do Movimento dos Atingidos por Barragens, o médico Cássio Pelegrini, outro brasileiro a bordo, precisou de internação hospitalar em Istambul após sofrer ferimentos decorrentes de tortura. O grupo de brasileiros detidos inclui ainda Ariadne Teles, advogada de direitos humanos e coordenadora da Global Sumud Brasil, e Thainara Rogério, desenvolvedora de software.
Na sexta-feira, 22 de maio, a ONG responsável pelas flotilhas apresentou acusações formais contra soldados de Israel, alegando agressões e possíveis estupros contra ativistas detidos em missões anteriores. O serviço prisional israelense negou as denúncias, classificando-as como falsas e sem base factual, afirmando que todos os detidos são tratados com dignidade e de acordo com a lei.
O relato de Beatriz detalha que a violência iniciou-se no momento da abordagem do barco “Amazon”, onde estavam nove mulheres e um homem. A embarcação foi surpreendida por uma lancha com 11 soldados israelenses a mais de 250 milhas náuticas de Gaza. O contato com o exterior foi dificultado, com sinais de rádio e internet cortados.
A bordo de um navio-prisão, os detidos enfrentaram condições precárias por dois dias, com relatos de motins para obter água e alimentos congelados. O frio era intensificado com o chão molhado, e aproximadamente 60 pessoas dormiam amontoadas em contêineres. Soldados dispararam balas de borracha contra os presos, inclusive quando entoavam cânticos por uma Palestina Livre, resultando em ferimentos sem assistência médica.
O momento mais crítico, segundo Beatriz, ocorreu após a atracagem no porto, quando ativistas começaram a ser torturados. Ela relata ter ouvido gritos assustadores, especialmente de participantes do Sul Global e de nacionalidade turca, que recebiam um tratamento mais violento. Reações com balas de borracha eram frequentes diante dos protestos dos demais detidos.
Na retirada do navio, Beatriz descreve ter sido algemada com lacres de plástico que apertaram seus pulsos, puxada agressivamente, impedida de respirar e jogada no chão. Foi ofendida e teve a cabeça batida contra uma estrutura de ferro. Durante a revista, realizada em uma tenda com outras pessoas, a violência e os gritos de tortura continuaram.
Além das agressões físicas, a humilhação era constante. Os detidos eram forçados a ajoelhar-se com a cabeça no chão enquanto o hino de Israel era tocado. Jovens soldados, alguns com cerca de 19 anos, demonstravam especial agressividade. As forças israelenses também tentaram coagir os presos a assinar documentos admitindo ilegalidade, o que Beatriz e outros recusaram.
A ativista enfatiza que o nível de violência observado nesta missão é inédito em comparação com flotilhas anteriores, sugerindo uma tentativa de Israel de usar o caso como exemplo. Apesar disso, ela reafirma o compromisso em continuar navegando em futuras missões. O plano agora é buscar levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza por via terrestre, através de uma caravana partindo da Líbia.
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