QUALIFICAÇÃO DESPERDIÇADA
Cinco milhões de brasileiros qualificados enfrentam dificuldade para conseguir emprego
Profissionais com ensino superior relatam dificuldade em achar vagas compatíveis, sendo frequentemente considerados "pesados demais" e recebendo ofertas salariais incompatíveis.
Cinco milhões de brasileiros qualificados enfrentam uma dura realidade: a dificuldade em encontrar empregos que correspondam à sua formação. Apesar do investimento em anos de estudo e desenvolvimento de habilidades, muitos profissionais se deparam com a frustração de currículos considerados excessivos pelas empresas, que resultam na oferta de salários aquém do esperado e da experiência adquirida.
A advogada empresarial sênior Ana Flávia Mambelli compartilha essa experiência, descrevendo como ouve repetidamente a justificativa de ser "muito qualificada para a vaga". Ela pontua que, após uma vivência profissional no exterior, ao retornar ao Brasil, percebe uma desconexão entre a expectativa de entrega de um trabalho sênior e a remuneração oferecida, que frequentemente se alinha a posições júnior.
O cenário revela um crescimento expressivo de profissionais com ensino superior no mercado de trabalho. Nos últimos 14 anos, o contingente quase dobrou, passando de 12,6 milhões para aproximadamente 25,8 milhões, conforme dados do IBGE. Contudo, esse avanço coexiste com a informalidade, afetando um a cada cinco desses trabalhadores qualificados.
Economistas definem essa discrepância como "mismatch", um descompasso entre o perfil do profissional e as exigências das vagas disponíveis. Essa situação impede que trabalhadores com alta qualificação encontrem posições condizentes com seu potencial e formação, sendo muitas vezes subutilizados.
André Portela, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, explica que, embora o Brasil tenha progredido em qualificação, a capacidade de absorção dessa mão de obra avançada não acompanhou o ritmo. "Se o país tivesse crescido mais, teríamos mais e melhores ocupações a serem exercidas por esses novos profissionais", afirma, ressaltando que um crescimento econômico robusto impulsionaria salários e oportunidades.
Ainda assim, Portela assegura que possuir formação superior permanece como um diferencial significativo, elevando as chances de empregabilidade e a potencial remuneração em comparação a quem não detém esse nível de estudo.
A publicitária Lívia Paula de Melo João, com graduação em rádio e TV, MBA em marketing digital e doutorado na França, também relata a "bagagem muito pesada" de suas qualificações, que por vezes superam a de seus superiores. Diante dessa compatibilidade limitada, ela agora considera cargos de menor escalão para "entrar, fazer carreira e conseguir crescer dentro da empresa".
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