Educação

Ideb da maquiagem? Regra da Seec coloca em xeque resultado comemorado por Fátima Bezerra

Ideb da maquiagem? Regra da Seec coloca em xeque resultado comemorado por Fátima Bezerra
Fátima Bezerra comemora resultado do Ideb suspeito de "maquiagem"

Seec editou uma portaria autorizando estudantes do 1º e do 2º ano do ensino médio a avançarem para a série seguinte mesmo reprovados em até seis disciplinas curriculares.

A saída do Rio Grande do Norte da última colocação nacional no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), amplamente comemorada pela governadora Fátima Bezerra (PT), passou a ser alvo de fortes questionamentos. Nos bastidores da política e da educação, cresce a avaliação de que parte do avanço pode ter sido impulsionada por uma mudança nas regras de aprovação adotada pela própria Secretaria de Estado da Educação (Seec).

O governo celebrou o salto da nota do ensino médio de 3,2 para 4,0, um crescimento de 25% em relação ao levantamento anterior, apresentando o resultado como prova da recuperação da educação pública estadual após anos de desempenho insatisfatório.

O que a propaganda oficial não destacou, entretanto, é que, antes da divulgação do novo Ideb, a Seec editou uma portaria autorizando estudantes do 1º e do 2º ano do ensino médio a avançarem para a série seguinte mesmo reprovados em até seis disciplinas curriculares. Na prática, a medida reduziu a retenção escolar e aumentou a taxa de aprovação da rede estadual.

A discussão não é meramente política. O próprio Inep, órgão responsável pelo Ideb, explica que o índice é calculado a partir de dois fatores: o desempenho dos estudantes nas provas do Saeb e o fluxo escolar, que leva em consideração as taxas de aprovação. Quanto menor a reprovação, maior tende a ser esse componente da nota.

É justamente por isso que a decisão da Seec passou a ser apontada por especialistas e adversários do governo como um fator que pode ter favorecido o resultado apresentado pelo Estado. A crítica é que flexibilizar a aprovação não significa, necessariamente, que os alunos aprenderam mais.

O tema ganha ainda mais repercussão porque a educação sempre foi uma das principais bandeiras políticas de Fátima Bezerra, professora de formação e ex-secretária de Educação de Natal. Ao longo dos últimos dias, a governadora utilizou as redes sociais e a estrutura oficial do Estado para destacar que o RN havia deixado a "lanterna" do ensino médio brasileiro, classificando o resultado como fruto dos investimentos realizados na rede estadual.

Para a oposição, porém, a narrativa perde força diante da mudança nas regras de progressão escolar. O argumento é que, se o aumento da taxa de aprovação decorreu de uma flexibilização administrativa, o avanço do Ideb não pode ser interpretado automaticamente como reflexo de uma melhora equivalente na qualidade da aprendizagem.

Embora o Ideb também considere o desempenho dos estudantes no Saeb — o que impede que a nota dependa exclusivamente da aprovação —, a coincidência entre a edição da portaria e a expressiva evolução do indicador abriu espaço para uma discussão que tende a ganhar contornos políticos.

Em ano eleitoral, o resultado que o governo pretendia transformar em vitrine pode acabar alimentando o discurso da oposição de que o Rio Grande do Norte deixou a última posição do ranking graças a uma "maquiagem estatística", e não por uma transformação efetiva da educação pública estadual.

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