VIOLÊNCIA DIGITAL CRESCENTE
Vazamento de imagens íntimas cresce 180% no Noroeste Paulista e expõe violência digital
Dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo revelam que crimes de divulgação de fotos e vídeos íntimos sem consentimento disparam 180% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com 2024, acendendo alerta para impactos devastadores nas vítimas e a necessidade urgente de apoio e justiça. Especialistas descrevem o fenômeno como uma 'violência brutal' que rouba a dignidade e a sensação de segurança de indivíduos, deixando traumas de longo prazo e exigindo uma resposta rápida e acolhedora da sociedade e das autoridades.
Um aumento alarmante de 180% nos crimes de divulgação de imagens íntimas sem consentimento abala a região noroeste paulista no primeiro trimestre deste ano, conforme dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP) apurados e divulgados nesta terça-feira, 19/05/2026. Este crescimento exponencial, comparando os registros de 2026 com os de 2024, ressalta a escalada de uma violência digital que causa traumas profundos e duradouros, afetando a dignidade e a segurança das vítimas de forma devastadora.
A prática de compartilhar fotos e vídeos íntimos sem autorização, tipificada no Artigo 218-C do Código Penal, tem se intensificado. Os registros, que passaram a ser contabilizados oficialmente em 2024, mostram uma escalada preocupante. Naquele ano, foram 21 casos de mulheres expostas em toda a região. Em 2025, o número duplicou, atingindo 42 boletins de ocorrência.
A análise trimestral revela a aceleração: cinco casos no primeiro trimestre de 2024, oito em 2025 e 14 em 2026. Este cenário configura um aumento de 180% entre 2024 e 2026, e de 75% apenas em relação a 2025, mesmo considerando somente os três primeiros meses de cada período.
Um caso de grande repercussão, recentemente julgado em Rio Preto, envolveu a condenação do Secretário Municipal de Saúde licenciado, Rubem Bottas. Ele recebeu pena de um ano e quatro meses em regime aberto, além de uma indenização equivalente a um salário mínimo para a vítima, sua ex-esposa de um relacionamento de duas décadas. O processo indicou que as imagens foram divulgadas enquanto o casal ainda estava unido.
O que diz a Lei
O Artigo 218-C do Código Penal Brasileiro define como crime a divulgação de cenas de estupro, sexo, nudez ou pornografia sem a autorização da vítima. A legislação abrange ações como oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, vender, expor à venda, distribuir, publicar ou divulgar, por qualquer meio – incluindo mídias de massa ou sistemas de informática – fotografias, vídeos ou outros registros audiovisuais que contenham tais cenas.
A pena prevista varia de um a cinco anos de reclusão. A lei estabelece um agravante para a punição quando o autor mantém ou manteve relação íntima ou afetiva com a vítima, ou quando a motivação do ato é vingança ou humilhação.
Ação das Forças de Segurança e Orientação às Vítimas
A SSP, em nota oficial, reafirmou que “crimes relacionados à divulgação não autorizada de conteúdo íntimo são tratados com seriedade pelas forças de segurança, especialmente diante dos impactos causados às vítimas”. A pasta detalhou que as investigações incluem a análise de dispositivos eletrônicos, a preservação de provas digitais e a colaboração com plataformas e provedores, sempre em conformidade com os parâmetros legais e judiciais.
Às vítimas, a orientação é clara e urgente: registrem imediatamente um boletim de ocorrência e preservem todas as evidências possíveis, como prints de tela, links, mensagens, conversas e e-mails. O registro pode ser efetuado em qualquer unidade policial, incluindo as Delegacias de Defesa da Mulher, pela Delegacia Eletrônica ou pelo telefone 180. A Polícia Civil enfatiza que a denúncia rápida é crucial para auxiliar tanto na remoção do conteúdo da internet quanto na responsabilização criminal dos envolvidos.
‘Violência Brutal’ e os Traumas Invisíveis
Para a psicóloga e sexóloga Monica Soares, de Rio Preto, a divulgação não autorizada de imagens íntimas constitui uma “violência brutal” e profundamente devastadora. “A divulgação de imagens íntimas sem consentimento provoca uma ruptura profunda na sensação de segurança e dignidade da vítima. A pessoa pode sentir que perdeu o controle sobre a própria imagem, sobre sua intimidade e sobre a forma como será vista pelos outros”, explica a especialista.
Os impactos emocionais são graves e persistentes: vergonha, medo, humilhação, isolamento social, queda acentuada da autoestima e severa dificuldade em restabelecer a confiança nas pessoas. Monica Soares alerta que o trauma pode acompanhar a vítima por anos, especialmente diante da chantagem, comentários ofensivos e o temor constante de que o conteúdo reapareça. “A internet amplia muito o sofrimento porque a vítima muitas vezes tem a sensação de que a exposição não terá fim”, complementa.
Silêncio, Culpa e Necessidade de Acolhimento
Muitas vítimas, temendo o julgamento e a exposição, hesitam em denunciar, especialmente quando o agressor é um parceiro ou ex-companheiro. “A vergonha e o medo de denunciar podem levar a vítima ao silêncio. Quando a pessoa não encontra acolhimento, ela pode carregar sozinha uma dor que deveria ser amparada. Isso aumenta o risco de ansiedade, depressão, crises de pânico, insônia e até quadros mais graves”, observa Monica.
A psicóloga destaca que o sofrimento é frequentemente agravado pelas reações nas redes sociais, onde “piadas, insultos, ironias e acusações funcionam como uma nova violência”. Ela salienta: “A vítima passa a ser julgada por sua intimidade, quando, na verdade, quem deve ser responsabilizado é quem divulgou ou compartilhou o conteúdo.”
Em casos mais extremos, a especialista aponta que a divulgação de conteúdo íntimo pode desencadear ansiedade, depressão, síndrome do pânico, insônia, irritabilidade, perda de apetite, dificuldade de concentração e sintomas traumáticos. “Em casos mais graves, podem surgir pensamentos de desesperança, automutilação ou ideação suicida, o que exige cuidado imediato, psicoterapia e muitas vezes medicações”, alerta Monica Soares.
Rede de Apoio Essencial para a Recuperação
Diante deste cenário devastador, Monica Soares sublinha a importância fundamental do acolhimento familiar e do apoio de amigos para a recuperação emocional da vítima. “Familiares e amigos devem acolher sem julgar. O mais importante é dizer: ‘Você não tem culpa’, ‘Estou aqui com você’, ‘Vamos buscar ajuda’. É fundamental evitar frases culpabilizantes, ajudar a guardar provas, denunciar publicações, acompanhar a vítima em serviços de apoio e incentivar o acompanhamento psicológico profissional”, orienta a psicóloga.
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