ALERTA MICROBIOLÓGICO

UFRN alerta para risco de bactéria resistente em produtos Ypê

Professor Rafael Wesley Bastos da UFRN fala sobre riscos da bactéria Pseudomonas aeruginosa encontrada em produtos Ypê.
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) investiga riscos da bactéria Pseudomonas aeruginosa.

Anvisa suspende lotes de produtos de limpeza da Ypê após identificar bactéria Pseudomonas aeruginosa, resistente a desinfetantes e antibióticos. Pesquisadores da UFRN detalham os riscos.

A presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em produtos da marca Ypê motivou a suspensão de lotes e gerou alerta entre especialistas sobre a capacidade do microrganismo de resistir a antibióticos, antissépticos e até produtos desinfetantes. A medida, determinada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 7 de maio, abrange detergentes, sabões líquidos e desinfetantes com lotes finalizados em 1. Pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) buscam entender o comportamento e os riscos associados a essa bactéria.

A suspensão ocorreu após a Anvisa identificar falhas nas boas práticas de fabricação da Química Amparo, responsável pela marca Ypê, em sua unidade fabril em Amparo, São Paulo. A bactéria Pseudomonas aeruginosa, embora naturalmente encontrada em ambientes úmidos e aquáticos, como torneiras e sistemas de água, preocupa os especialistas por sua elevada resistência a mecanismos comuns de eliminação.

![UFRN detalha risco da bactéria encontrada em produtos Ypê](https://agorarn.com.br/files/uploads/2026/05/WhatsApp-Image-2026-05-18-at-16.11.12-1-830x468.jpeg)

Segundo o professor Rafael Wesley Bastos, do Programa de Pós-Graduação em Biologia Parasitária da UFRN e vice-coordenador do Grupo de Estudo e Ações em Saúde Única (Geasu-RN), a resistência intrínseca da Pseudomonas aeruginosa a desinfetantes é um ponto crítico. "A Pseudomonas é resistente a desinfetantes e, justamente por isso, a gente se preocupa dela estar presente nesses produtos, porque ela sobrevive — coisas que outras bactérias normalmente não conseguem", explica.

Estudos recentes, incluindo pesquisas publicadas na revista científica Frontiers in Fungal Biology e coordenadas por Rafael Bastos, revelam a complexidade biológica da bactéria. Foi observado que a Pseudomonas aeruginosa pode inibir o crescimento do Candida auris, um fungo multirresistente considerado prioritário pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa interação demonstra a capacidade da bactéria de, ao mesmo tempo, causar infecções graves e atuar contra outros microrganismos.

A Pseudomonas aeruginosa não é a única bactéria com capacidade de sobreviver em produtos de limpeza, mas sua alta resistência a torna um foco de monitoramento especial. O professor Bastos enfatiza que, apesar de pacientes imunossuprimidos serem mais vulneráveis, indivíduos saudáveis também estão suscetíveis a infecções. "Ela pode causar infecções em pessoas sem debilidade no sistema imunológico", alerta.

Riscos e Infecções

Pacientes com condições como câncer, HIV/Aids descontrolada ou em uso prolongado de corticoides enfrentam um risco aumentado de complicações. As vias de infecção incluem ferimentos, cortes ou fissuras na pele, e até o contato com água quente contaminada pode facilitar a entrada do microrganismo. As infecções podem manifestar-se como foliculite (inflamação dos folículos capilares), infecções oculares, otites e, em casos mais graves, atingir bexiga e rins, podendo evoluir para sepse.

A capacidade da bactéria de formar biofilmes — estruturas aderentes que se formam em tubulações e equipamentos industriais — é outro fator relevante. Esses biofilmes dificultam a remoção do microrganismo, mesmo após processos rigorosos de limpeza e desinfecção, contribuindo para sua persistência em ambientes industriais e explicando sua sobrevivência em produtos de higiene.

Recomendações e Descarte Correto

A Anvisa orienta os consumidores a cessarem imediatamente o uso dos produtos afetados e a contatarem o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da Ypê para solicitar recolhimento, troca ou ressarcimento. O professor Rafael Bastos acrescenta a importância do descarte adequado, recomendando que os produtos não sejam descartados em lixo comum, pias ou vasos sanitários, para evitar a contaminação de rios, lagos e sistemas de abastecimento de água. "O produto pode contaminar esses locais com a bactéria. O correto é entrar em contato com o serviço de atendimento ao consumidor da empresa, requisitando o seu recolhimento", orienta.

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