ALERTA DE TARIFAS
Trump impõe tarifas e EUA ignoram relevância do mel brasileiro, aponta empresa
Decisão de Donald Trump, que propôs taxas sobre produtos brasileiros, ignora o peso do mel nacional no mercado americano. Empresários buscam isenção em audiência pública em Washington.
A decisão de impor tarifas sobre produtos brasileiros, anunciada em 1º de junho por Donald Trump, tem gerado preocupação em setores estratégicos da economia nacional, como o de produção de mel. Uma empresária brasileira, que atua há 35 anos no mercado de mel e própolis, relatou que integrantes do governo americano demonstraram desconhecimento sobre a relevância do mel do Brasil para o mercado dos Estados Unidos. Essa percepção surgiu durante reuniões de lobby em Washington, com o objetivo de defender a isenção do produto das novas tarifas.
Essa constatação de desconhecimento é alarmante, especialmente quando se considera que cerca de 83% do mel orgânico importado pelos EUA é brasileiro. No caso do mel convencional, o Brasil responde por 75% das importações americanas. A empresária Joelma Lambertucci de Brito, comandante da Lambertucci Trade Solution, especializada em exportação, participará de uma audiência pública em Washington nesta quarta-feira, 01/07/2026, para apresentar os argumentos em defesa do produto.
As tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras, propostas por Trump, foram motivadas por uma investigação sobre temas como desmatamento ilegal, pirataria e uso do PIX. Adicionalmente, taxas extras de 12,5% foram anunciadas para 60 países, incluindo o Brasil, por falhas no combate ao trabalho forçado.
Em reuniões com o Departamento de Agricultura (USDA) e o Escritório de Comércio dos EUA (USTR), responsáveis pela proposta tarifária, ficou evidente para a empresária que o mel não foi incluído na lista de isenções por uma falha na comunicação sobre seu impacto econômico. "Quando a gente sentou na mesa para negociar, eles não faziam ideia", relatou Brito. Ela explicou que, geralmente, as autoridades americanas focam na marca do produto, sem atentar para o país de origem.
Segundo Brito, o setor e o governo brasileiros precisam intensificar a divulgação da importância do produto nacional nos mercados internacionais. "Não adianta simplesmente ser o maior fornecedor, você tem que realmente propagar", enfatiza. Ela compara a situação com a carne e o café brasileiros, amplamente reconhecidos nos EUA devido a ações de lobby eficazes.
A estratégia de defesa na audiência pública incluirá a apresentação do volume de importação de mel pelos EUA e outros pontos cruciais. Um argumento central será a ausência de concorrência direta com produtores americanos no segmento de mel orgânico. Enquanto a apicultura nos EUA se concentra na polinização e em mel convencional, o Brasil possui condições ambientais ideais para a produção orgânica, beneficiado pela resistência das abelhas africanizadas a doenças, o que dispensa o uso de antibióticos e acaricidas.
Outro ponto a ser destacado é o impacto direto no consumidor americano. A imposição de tarifas deve resultar em aumento de preços e potencial escassez de mel orgânico nas prateleiras, visto que a produção doméstica não é suficiente para suprir a demanda. A dificuldade de substituição do fornecimento brasileiro também será abordada, pois a conversão de áreas de produção para o modelo orgânico exige, no mínimo, um ano de transição, impossibilitando uma substituição rápida por outros países.
Importadores americanos, com maior peso político, também apresentarão depoimentos argumentando que as tarifas podem gerar perdas de faturamento e cortes de empregos em empresas dos EUA. O setor apícola brasileiro já sofreu com medidas tarifárias anteriores de Trump, impactando severamente produtores do Piauí, maior exportador do país, que em 2024 destinou 85% de sua produção para o mercado americano. Em 2025, uma sobretaxa de 50% levou ao cancelamento de centenas de toneladas em vendas e prejuízos a milhares de famílias de apicultores, fonte de renda para mais de 40 mil famílias no Piauí. A expectativa agora é de evitar um novo cenário de perdas.
"Vamos crer que a gente vai conseguir essa isenção", declarou a empresária. "Mas se a gente não conseguir, vamos continuar nosso trabalho de lobby com os formadores de opinião em Washington. Isso deve ser contínuo para melhorar a rede de apoio ao mel brasileiro."
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