CONCORRÊNCIA EM ALTA
Sisu eleva concorrência e notas de corte com novas regras
Edição de 2026 do Sistema de Seleção Unificada registrou aumento de 146% em candidatos aptos e de 39% em inscrições. Especialistas apontam impacto da flexibilização no uso de notas do Enem.
A primeira edição do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) de 2026, marcada pela possibilidade de usar notas de até três edições anteriores do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), elevou a concorrência e as notas de corte em boa parte dos cursos superiores públicos. Apesar da expectativa de que candidatos com notas antigas dominassem o processo, dados do Ministério da Educação (MEC) revelam que 76% dos aprovados utilizaram o resultado do Enem de 2025, índice que chegou a 90% para Medicina.
A principal novidade do Sisu 2026 permitiu que estudantes utilizassem as notas das edições de 2023, 2024 e 2025 do Enem. Essa mudança gerou apreensão entre concluintes do ensino médio deste ano, que antecipavam uma disputa mais acirrada com o aumento do número de candidatos aptos.

Os números confirmam o acirramento da disputa. Segundo o MEC, houve um crescimento de 146% no total de candidatos aptos e de 39% no número de inscrições em relação à edição anterior. Uma avaliação preliminar da pasta indica que a alteração também contribuiu para reduzir o número de vagas ociosas nas instituições públicas de ensino superior.
Embora as notas de corte tenham subido na ampla concorrência, o impacto foi considerado moderado. Um levantamento com os 50 cursos mais ofertados pelo Sisu aponta um aumento médio de 43 pontos em comparação com 2025. Na comparação com 2024, porém, a diferença foi de apenas sete pontos. Em 14 desses cursos, incluindo Medicina, Psicologia, Engenharia Ambiental e Arquitetura, a nota de corte de 2026 ficou abaixo da registrada em 2024.
Especialistas atribuem a elevação das notas principalmente à nova regra que ampliou o universo de candidatos. "São mais notas concorrendo pelas mesmas vagas das universidades", resume Sabrina Oliveira, professora especialista em Enem e Sisu. Segundo ela, a possibilidade de reaproveitamento das notas aumentou naturalmente a competição, sem que houvesse ampliação proporcional da oferta de cursos nas universidades públicas.
Além da mudança promovida em 2026, especialistas lembram que outras alterações recentes influenciaram o comportamento das notas de corte. O diretor de ensino e inovações educacionais da Arco Educação, Ademar Celedônio, cita a reformulação promovida pela nova Lei de Cotas em 2025. A partir dessa mudança, todos os candidatos passaram a disputar inicialmente as vagas da ampla concorrência, independentemente de terem direito às cotas. "Todos os candidatos passaram a concorrer primeiro na ampla concorrência. Isso significa que alunos com perfil de cotista e notas muito altas passaram a ocupar vagas da ampla concorrência, deixando as vagas reservadas para outros candidatos cotistas com notas menores", explica.
Segundo Celedônio, esse novo modelo ajuda a explicar por que as notas de corte entre os cotistas foram mais elevadas em 2024 e apresentaram comportamento diferente nos anos seguintes. Outra alteração lembrada por especialistas ocorreu em 2024, quando deixaram de existir programas de bônus regional em 16 instituições de ensino superior. Até então, estudantes residentes na cidade ou em municípios próximos às universidades, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, recebiam pontuação adicional para ingresso. De acordo com Sabrina Oliveira, a extinção dessa política também influenciou a redução das notas de corte observada em 2025.
O Ministério da Educação ressalta que a nota de corte depende de diversos fatores além da mudança nas regras do Sisu. Entre eles estão o número de vagas disponíveis, o perfil dos candidatos inscritos, as políticas de ações afirmativas vigentes, a distribuição das escolhas por curso, turno e campus e os pesos atribuídos por cada universidade às áreas avaliadas pelo Enem.
Na modalidade de cotas, o comportamento foi diferente da ampla concorrência. Em comparação com 2025, as notas de corte aumentaram em 49 dos 50 cursos mais ofertados pelo Sisu. No entanto, quando comparadas às registradas em 2024, todas as 50 graduações analisadas apresentaram redução da nota mínima necessária para aprovação.
Mesmo com o aumento da concorrência, o desempenho dos estudantes que fizeram o Enem em 2025 permaneceu predominante no processo seletivo. Segundo o MEC, três em cada quatro aprovados utilizaram as notas obtidas na edição mais recente do exame. Em Medicina, nove em cada dez vagas ficaram com candidatos que fizeram a prova em 2025.
Para o ministério, os dados indicam que a nova regra não prejudicou os estudantes concluintes do ensino médio. "Ao reduzir vagas ociosas, a nova regra está ampliando o aproveitamento da oferta pública de educação superior", afirma a pasta. O governo federal também avalia que a ampliação do banco de notas permitiu maior ocupação das vagas disponíveis, sem impedir que candidatos que realizaram o Enem em 2025 permanecessem como maioria entre os aprovados.
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