NOVO TRATAMENTO OBESIDADE
Semaglutida e tirzepatida são indicadas como primeira opção no tratamento da obesidade em nova diretriz internacional
Decisão do American College of Physicians (ACP) prioriza medicamentos que imitam hormônios intestinais, sempre associados a mudanças no estilo de vida. O Brasil já possui diretrizes semelhantes.
Nova diretriz internacional estabelece semaglutida e tirzepatida como tratamento de primeira linha para obesidade
Em uma decisão que marca um avanço significativo no manejo da obesidade, o American College of Physicians (ACP), entidade que congrega médicos internistas dos Estados Unidos, publicou em 15 de junho de 2026 uma nova diretriz. O documento, divulgado na revista científica Annals of Internal Medicine, estabelece a semaglutida e a tirzepatida como opções terapêuticas prioritárias para adultos com obesidade e sobrepeso associado a comorbidades. A recomendação reforça a importância de combinar essas medicações com alterações no estilo de vida, visando não apenas a perda de peso, mas também a melhoria da saúde geral e a prevenção de doenças crônicas.
Impacto na Dignidade e Bem-Estar
A obesidade, reconhecida como uma doença crônica complexa, afeta significativamente a dignidade e a qualidade de vida de milhões de pessoas. A nova diretriz oferece esperança ao apresentar tratamentos com taxas de sucesso notavelmente mais elevadas do que as observadas anteriormente. Se antes a perda de 5% do peso corporal era considerada um grande feito e a falta de atingimento em três meses levava à categorização de "não respondedor", hoje, medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida permitem que aproximadamente nove em cada dez indivíduos ultrapassem essa marca. Essa eficácia renovada tem o potencial de reduzir o estigma associado à obesidade, promovendo uma visão mais compassiva e baseada na saúde para aqueles que vivem com essa condição.
Estratégias de Tratamento Detalhadas
Para adultos com obesidade (IMC igual ou superior a 30), a diretriz hierarquiza as opções medicamentosas. Semaglutida e tirzepatida são indicadas como primeira linha. Em seguida, vêm a combinação fentermina-topiramato, a liraglutida e, por último, a associação naltrexona-bupropiona. No caso de indivíduos com sobrepeso (IMC entre 27 e 30) e pelo menos uma doença associada — como diabetes tipo 2, dislipidemia, hipertensão, apneia do sono ou doença cardiovascular —, a recomendação inicial é também por semaglutida ou tirzepatida, com a liraglutida como alternativa secundária.
Contexto Global e Nacional
O pano de fundo para essa atualização é a prevalência alarmante do sobrepeso e da obesidade em escala mundial. Segundo dados citados pelo ACP, 59% da população global vive com essas condições. No Brasil, a realidade não é diferente: 68% dos adultos apresentam excesso de peso e 31% convivem com a obesidade, com quase 61 mil mortes prematuras atribuídas ao IMC elevado em 2021. O médico Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), destaca que diretrizes como essa servem como bússolas essenciais, especialmente para médicos generalistas que lidam com um vasto leque de condições e precisam de referências claras para áreas em rápida evolução, como o tratamento da obesidade.
Diretrizes Brasileiras Alinhadas
O Brasil já caminha nessa direção. Em 2025, cinco importantes entidades médicas brasileiras — Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), SBD, Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e Academia Brasileira do Sono (ABS) — publicaram uma diretriz conjunta que também prioriza a semaglutida e a tirzepatida. A principal diferença reside na abordagem: enquanto o ACP propõe uma escada de medicamentos, o documento brasileiro estratifica o tratamento a partir do risco cardiovascular individual do paciente, utilizando ferramentas como o escore PREVENT para guiar a escolha terapêutica.
Desafios e Considerações Éticas
A diretriz americana organiza outras drogas numa hierarquia, com a combinação fentermina-topiramato como segunda opção, a liraglutida como terceira e a associação naltrexona-bupropiona como quarta. Em pessoas com sobrepeso e comorbidades, a recomendação é iniciar com semaglutida ou tirzepatida. É importante notar que a combinação fentermina-topiramato não está entre os medicamentos para obesidade aprovados no Brasil que constam no documento nacional. Além disso, a sibutramina, embora ainda prescrita no país, é explicitamente desaconselhada pelo texto nacional em pacientes com alto risco cardiovascular, devido a evidências passadas de aumento de eventos cardiovasculares em estudos específicos, como o SCOUT.
Metas de Perda de Peso e Segurança
Tanto a diretriz americana quanto a brasileira enfatizam que a perda de peso é um meio para alcançar melhor saúde, e não um fim estético. A endocrinologia adota a regra de que perdas a partir de 3% já geram benefícios metabólicos (glicose, triglicérides), enquanto 5% a 10% melhoram a qualidade de vida e reduzem dores. Perdas de 10% ou mais diminuem o risco de infarto e AVC, e com 15% ou mais, observa-se redução da mortalidade e remissão do diabetes tipo 2. A diretriz do ACP alerta para possíveis efeitos do emagrecimento rápido, como deficiências nutricionais e perda de massa muscular e óssea, especialmente em idosos, recomendando atenção à ingestão proteica, um ponto também reforçado no documento brasileiro.
Eficácia e Proteção Cardiovascular
A superioridade de semaglutida e tirzepatida reside não apenas na perda de peso, mas também em seus benefícios cardiovasculares. Estudos como o SURMOUNT-5 demonstraram que a tirzepatida pode levar a uma perda média de cerca de 20% do peso corporal em 72 semanas, superando os aproximadamente 14% da semaglutida. Crucialmente, esses medicamentos protegem o coração. O estudo SELECT (2023) mostrou que a semaglutida reduziu em 20% infartos, AVCs e mortes cardiovasculares em pessoas com obesidade e doença cardiovascular estabelecida. A tirzepatida também demonstrou segurança cardiovascular comparável à dulaglutida e uma redução de 16% na mortalidade geral em pacientes com diabetes e alto risco cardiovascular (estudo SURPASS-CVOT). A tirzepatida foi ainda aprovada pelo FDA para apneia do sono moderada a grave.
Escolha Terapêutica e Acessibilidade no Brasil
A escolha entre semaglutida e tirzepatida envolve fatores como eficácia desejada, custo, histórico do paciente e preferência individual, em um modelo de decisão compartilhada entre médico e paciente. A tirzepatida tende a ser mais eficaz para grandes perdas de peso, enquanto a semaglutida, muitas vezes mais acessível, ganha espaço. Contudo, um obstáculo significativo no Brasil é o preço elevado desses tratamentos, que não são oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A diretriz nacional reconhece essa limitação e sugere priorizar grupos de maior risco cardiovascular. A disseminação dessas novas abordagens terapêuticas depende não apenas de diretrizes, mas também de diálogo, educação médica continuada e do papel da imprensa na divulgação de informações baseadas em evidências, ajudando a combater o estigma e a promover o tratamento da obesidade como um componente vital para uma vida mais longa e saudável.
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