SEGURANÇA AÉREA EM FOCO

Relatório final do Cenipa aponta falhas sistêmicas na tragédia da Voepass

Escombros e equipes de investigação no local do acidente aéreo da Voepass.
Cenipa divulga relatório final sobre fatores que levaram à queda do avião da Voepass. — Foto: Gabriella Ramos/g1

Documento detalha uma cultura de normalização de desvios, falhas técnicas não reportadas e supervisão insuficiente da Anac.

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou as conclusões sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), identificando uma sucessão de falhas operacionais e estruturais que culminaram na tragédia. A decisão, tornada pública após minuciosa investigação técnica, traz recomendações urgentes às instituições envolvidas, incluindo a fabricante ATR e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), visando a prevenção de novos episódios.

A investigação revelou que a aeronave enfrentou condições severas de gelo logo após a decolagem. Entre os fatores críticos, o documento destaca a existência de uma "cultura de normalização de desvios" na Voepass, onde panes técnicas eram frequentemente omitidas dos diários de bordo para garantir a continuidade das operações. Segundo os peritos, o avião não deveria ter decolado, pois apresentava uma falha prévia no sistema de limpador de para-brisa, além de problemas no sistema de degelo da asa direita.

O impacto dessas omissões foi agravado pelo comportamento da tripulação. O monitoramento indicou que a cabine carecia de atenção plena, com diálogos sobre assuntos pessoais durante o voo, o que retardou a percepção de avisos críticos. Quando a aeronave entrou em estol, uma manobra incorreta do copiloto — que puxou o manche em vez de empurrá-lo — tornou a recuperação impossível. A velocidade de descida atingiu níveis extremos, resultando em um impacto que vitimou dezenas de pessoas.

O Cenipa também questionou a eficácia da atuação da Anac. O relatório aponta que, embora auditorias anteriores tenham identificado não conformidades na manutenção e rastreabilidade de peças da empresa, essas ações de fiscalização não foram suficientes para mitigar os riscos operacionais, falhando em impedir o acidente.

As recomendações, que possuem caráter de orientação para melhoria da segurança, incluem alterações nos alertas de desempenho sugeridas à European Union Aviation Safety Agency (EASA) e revisões nos protocolos de comunicação e vigilância por parte da Anac. A Voepass, em nota oficial, reafirmou seu compromisso com a transparência e o suporte às famílias das vítimas.

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