DIREITOS HUMANOS EM FOCO

Refugiadas afegãs reconstroem vidas no DF após perseguição do Talibã

Farzana Ahmadi em ambiente urbano, representando a jornada de refugiados afegãos.
Farzana Ahmadi, uma das refugiadas afegãs que reside no DF, aponta desafios da adaptação.

Mulheres que fugiram do Afeganistão buscam autonomia no Brasil enquanto enfrentam os desafios da adaptação cultural e da validação de suas trajetórias profissionais.

Farzana Ahmadi encontrou no Distrito Federal um refúgio para reconstruir sua identidade e liberdade, transformando o trauma do exílio em uma jornada de resistência. Aos 36 anos, a afegã nascida em Cabul, que antes dedicava sua vida ao ensino de inglês e à tradução, viu-se forçada a deixar sua terra natal em 2022, impactada diretamente pelas restrições de gênero impostas pelo Talibã após a retomada do poder em agosto de 2021.

Para Farzana, a proibição do acesso à educação imposta pelo regime afegão não representa apenas uma barreira pessoal, mas uma estratégia que compromete o desenvolvimento de toda a sociedade. "A educação faz uma mulher entender quem ela é e lutar pelos próprios direitos. Quando uma menina é impedida de estudar, ela não perde apenas a oportunidade de aprender; perde parte do seu futuro", afirma a professora, que chegou à capital brasileira um ano após a operação de retirada de um grupo de juízas ameaçadas pelo regime extremista — entre elas, sua própria irmã.

A magistrada em questão, juntamente com outras seis colegas e seus familiares, foi retirada do Afeganistão em 2021 com o apoio da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB). Essas juristas tornaram-se alvos preferenciais do Talibã justamente por terem proferido sentenças contra o grupo extremista em casos de terrorismo e violência de gênero. Roberta Abdanur, cofundadora do Instituto SHE, organização que atua em Brasília no suporte a essas famílias, destaca que a perseguição sistêmica é um fator determinante para a concessão de pedidos de proteção internacional.

"Desde que o Talibã retomou o poder, houve aumento nos pedidos de proteção de mulheres afegãs. As restrições impostas pelo regime à educação, ao trabalho e à mobilidade são cada vez mais reconhecidas como formas de perseguição baseada em gênero", explica Abdanur. O Instituto SHE estima que cerca de 100 afegãos, incluindo famílias de magistradas, tenham passado pela unidade da Federação em busca de amparo e integração social.

No Distrito Federal, o processo de reintegração de Farzana envolveu aprender o português — um desafio linguístico significativo diante de sua origem — e enfrentar a burocracia para validar diplomas e retomar sua carreira. "Recomeçar não deveria significar abandonar tudo o que construímos profissionalmente", reflete a educadora, que hoje atua como intérprete e busca seu lugar em uma cultura que, muitas vezes, ainda a enxerga prioritariamente através de sua fé e vestimenta.

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