CRISE HUMANITÁRIA

Rede de coiotes explora cubanos em rota de migração irregular pela Amazônia

Grupo de cubanos resgatados em situação de vulnerabilidade pela polícia em Roraima.
Migrantes cubanos sendo resgatados pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Roraima.

Autoridades brasileiras desarticulam grupo que cobra até US$ 10 mil por pessoa em travessia perigosa pela fronteira com a Guiana. Migrantes relatam condições degradantes.

Uma rota de migração irregular de cubanos pela Amazônia, marcada pela exploração e por condições desumanas, está sob investigação intensiva das autoridades brasileiras. Grupos criminosos, conhecidos como coiotes, cobram valores exorbitantes, chegando a US$ 10 mil (aproximadamente R$ 51 mil) por pessoa, para organizar a travessia perigosa e irregular de cubanos para o Brasil, geralmente a partir da fronteira com a Guiana. Os migrantes frequentemente relatam ter passado fome e enfrentar riscos à sua dignidade ao longo do percurso.

Registros recentes indicam um aumento expressivo no número de cubanos resgatados em situação irregular no estado de Roraima. Somente no último dia 11 de junho de 2026, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) resgatou 225 cubanos em abordagens na BR-401. Em uma ação separada, no mesmo dia, a Polícia Militar de Roraima (PMRR) resgatou outros 35 cubanos que faziam a travessia a pé da ponte dos Macuxis do Cantá em direção a Boa Vista. Este foi o segundo grande resgate em menos de três dias, evidenciando a urgência da crise humanitária.

A cubana Beatriz, de 29 anos, que busca se regularizar em Boa Vista, descreveu a grave situação em seu país. “Cuba tem muitos problemas. Não tem luz, água, gás, comida, os preços estão altos e o salário não alcança”, relatou ao Estadão. Ela planeja trabalhar no Brasil para reunir recursos e trazer seus dois filhos, que ficaram em Cuba sob os cuidados da avó. Os planos de Beatriz refletem a esperança de um futuro melhor, mas a dura realidade da migração irregular impõe desafios.

A rede de coiotes opera de forma coordenada, envolvendo indivíduos brasileiros, guianenses e cubanos, que organizam desde voos de Havana para Georgetown, na Guiana, até o transporte terrestre e hospedagens temporárias no Brasil. De acordo com a polícia, 16 coiotes foram presos pela PRF desde o início do ano. A estratégia inclui o uso de veículos alugados que transportam grupos de até 12 pessoas em carros projetados para cinco, aumentando o risco de acidentes durante a fuga das fiscalizações.

Em resposta a esse fluxo migratório, a Polícia Federal deflagrou, na quinta-feira, 11 de junho de 2026, a Operação Conexão Norte. O objetivo é desarticular o grupo investigado pelo crime de promoção de migração ilegal. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Boa Vista e Bonfim, mas ninguém foi preso durante a ação. A operação visa a desestruturar a logística criminosa por trás dessa rota perigosa.

A geografia da região favorece a atuação desses grupos. A proximidade entre Cuba, Guiana e Suriname facilita voos comerciais para a área. Além disso, a fronteira entre Brasil e Guiana possui trechos vulneráveis e acesso a rodovias asfaltadas que levam rapidamente a Boa Vista. O trajeto pela BR-401, que liga Bonfim a Boa Vista, é um corredor crucial para a migração irregular, onde os transportadores podem lucrar significativamente por passageiro.

A periculosidade da rota é exacerbada pelas tentativas de evasão à fiscalização. Ao avistarem viaturas, os motoristas abandonam a BR-401 e acessam estradas vicinais de terra em alta velocidade, o que tem resultado em acidentes fatais. Em 2025, dois cubanos morreram em decorrência do capotamento de um veículo em fuga. Recentemente, para escapar da PRF, os coiotes chegaram a abandonar os migrantes cerca de 10 quilômetros antes de Boa Vista.

Em uma operação humanitária significativa realizada na segunda-feira, 8 de junho de 2026, a PRF resgatou 61 cubanos alojados em uma casa em Cantá (RR), utilizada como ponto de apoio. No total, 108 cidadãos cubanos foram encontrados em condições degradantes, muitos relatando não se alimentar há pelo menos dois dias. Cinco brasileiros suspeitos de atuar como coiotes foram presos em flagrante. As vítimas foram encaminhadas para abrigos da Operação Acolhida.

O fluxo de cubanos buscando refúgio no Brasil tem crescido exponencialmente. Em 2025, foram registradas 41,9 mil solicitações de refúgio, um aumento considerável em relação às 22,3 mil do ano anterior. Já em 2026, até o momento, o número chegou a 13,4 mil pedidos. Essa tendência sublinha a gravidade da crise humanitária que força a saída de tantos cidadãos de Cuba.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública informa que monitora ativamente os fluxos migratórios por meio de sistemas integrados e atua na articulação com outros órgãos públicos para coibir o contrabando de migrantes e desarticular grupos criminosos. A situação exige atenção contínua para garantir a segurança e a dignidade dos migrantes.

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