ECONOMIA SUSTENTÁVEL AGORA
Reciclagem: Sebrae-RN impulsiona economia circular e dignidade social
Com R$ 4 milhões, iniciativa beneficia 459 catadores e planeja ampliar impacto em 45 municípios até 2026.
A iniciativa Pró-Catadores, impulsionada pelo Sebrae-RN, em parceria com organizações como The Human Project (THP) e ZRO, transforma a realidade de mulheres em situação de vulnerabilidade em Natal e impulsiona a sustentabilidade no Agreste potiguar. Com um investimento de R$ 4 milhões, o projeto, iniciado em 2025, oferece capacitação e suporte para a conversão de resíduos plásticos em móveis sustentáveis e a gestão de cooperativas, criando novas fontes de renda e dignidade. Esta ação não apenas promove a inclusão social, mas também fortalece a economia circular, mudando fundamentalmente o destino de famílias e comunidades por meio do valor do que antes era descartado.
Desde sua chegada ao Rio Grande do Norte em 2025, o programa do Sebrae já atendeu 459 catadores, 47 organizações do setor e 45 municípios potiguares, com uma ambiciosa perspectiva de ampliar esses números em 2026. A Cooperativa EcoD’elas, localizada no conjunto Gramoré, na zona Norte da capital, é um dos empreendimentos assistidos. Formada por mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica, a cooperativa recebe, até o final deste mês de maio de 2026, formação completa para transformar o plástico em móveis duráveis e sustentáveis, aliada a uma capacitação empreendedora.
A formação é ministrada pela ONG The Human Project (THP), parceira do Sebrae, através do projeto ZRO. Com essa assistência, as mulheres da cooperativa desenvolveram o conjunto escolar infantil Ecodesk (carteira e cadeira), fabricado 100% a partir de resíduos plásticos. Após a conclusão desta fase de treinamento, a intenção é vender o kit para a rede pública de ensino — um processo que será encabeçado pela THP — e expandir o catálogo de produtos fabricados.
A visão, contudo, não se restringe apenas a móveis escolares. "Estamos pensando em modelos de mesinhas e cadeiras para pousadas, considerando que Natal é uma cidade turística", revela Ana Cláudia Fonsêca, vice-presidente da cooperativa.
A matéria-prima plástica utilizada pela cooperativa é obtida por meio de doações, e também pelo Sebrae e ZRO, que captam o material através de outras cooperativas de catadores. "Aqui nós não temos a função de separar o lixo, então, estas são as formas pelas quais a gente consegue o plástico, que deve ser entregue limpo. Um material sujo não resultará em um bom produto", ressalta Ana Cláudia.
O trabalho de transformação ocorre em uma oficina, um espaço gentilmente cedido pelo Centro Educacional Dom Bosco. Para a produção dos móveis, utilizam-se plásticos de itens como baldes, bacias, garrafões d’água, cadeiras e tampas de garrafas de refrigerante. Inicialmente, se necessário, a matéria-prima é triturada com um facão, mas esse processo acontece de forma integral em uma máquina específica para esta função.
"O material que nós utilizamos aqui é de dois tipos: o PEAD (2) e o PP (5). Essa descrição vem na própria embalagem plástica, representada em um triângulo. Esses tipos são separados no momento da trituração. Eles foram escolhidos porque apresentam maior resistência e durabilidade, que são os diferenciais dos nossos produtos", explica Christiane Pessoa, presidente da cooperativa EcoD’elas.
Após a trituração, o plástico é derretido em uma segunda máquina, de onde emerge em formato de placa. Geralmente, este é um processo que se completa em um único dia. Em seguida, é feito o acabamento da placa, que será cortada e moldada para a montagem. Todos os processos dependem de máquinas especializadas.
Pioneirismo em Natal impulsiona vidas
Jéssica Sá, coordenadora do projeto ZRO e responsável pela formação da cooperativa, enfatiza que o foco é atender mulheres sem formação técnica e que necessitam melhorar as próprias condições de renda. Ela realiza formações em outros estados e trouxe para o Rio Grande do Norte a aplicação do conjunto escolar Ecodesk, já implementado e premiado em uma escola da comunidade quilombola Pedra Furada, em Sergipe. "As mulheres que atendemos não são escolhidas por acaso, por isso buscamos aquelas que são mães solo ou que têm como única fonte de recursos o Bolsa Família, por exemplo", detalha Jéssica.
Este é o caso de Francinete Nascimento, integrante da cooperativa EcoD’elas. Aos 35 anos, Francinete cuida sozinha dos cinco filhos. No projeto, ela encontrou a esperança de um futuro com múltiplas possibilidades. "É uma cooperativa que nos proporcionará um avanço e independência financeira que são muito importantes", declara.
Andrea Rodrigues, de 42 anos, também expressa sua alegria em participar da iniciativa. "Estou muito feliz, porque somos pioneiras nesse trabalho de transformar plástico em móveis em Natal", diz ela, que igualmente cuida sozinha de cinco filhos e vislumbra no projeto uma nova fonte de renda.
Para catadores do Agreste, "Lixo é ouro"
Em Lagoa de Velhos, no coração do Agreste potiguar, uma iniciativa tem alterado a forma como moradores lidam com os próprios resíduos sólidos desde o final de março de 2026, além de gerar emprego e renda na região. A mudança ocorre graças a um dos eixos do programa Lagoa de Velhos Sustentável, implantado pela Prefeitura Municipal, que envolve o uso de uma moeda circular, o Fabião, para compras em uma ecoloja da cidade a partir da coleta dos resíduos. A proposta é gerar impacto socioambiental, de acordo com o prefeito José Nildo Galdino.
"Em abril de 2026, primeiro mês do programa, o resultado foi excepcional: das 32 toneladas de lixo coletadas, cerca de 21 foram para o aterro sanitário, enquanto sete foram para a reciclagem e as outras três para compostagem. Nossa meta é, em um ano, reduzir o envio de lixo para o aterro. Em apenas um mês, atingimos um terço dessa meta", comemorou o prefeito.
O principal fator de estímulo à mudança foi a criação da ecoloja Maria Carolina de Jesus, onde é possível comprar produtos como pipocas e doces, itens de limpeza e de higiene pessoal com a moeda Fabião. Na prática, as famílias entregam os resíduos mediante o pagamento feito com a moeda circular, a qual, por sua vez, é utilizada por essas mesmas famílias para as compras na ecoloja. A coleta dos resíduos é feita pela Associação Mãos que Reciclam, assim como a gestão da loja. Para a logística da coleta, cada casa da cidade recebeu da Prefeitura um kit com três baldes (onde devem ser separados vidro, material orgânico e rejeitos) e dois sacos (para plástico e papel).
"A moeda sai da associação para comprar o reciclável e retorna depois por meio da lojinha", descreve o prefeito. A Associação Mãos que Reciclam conta com 12 associados, os quais são divididos em equipes para fazer a coleta e triagem dos resíduos, além dos cuidados com a ecoloja. Os ganhos dos associados vêm de um contrato com a Prefeitura para a coleta de lixo e da venda dos resíduos a empresas de reciclagem. "Para a iniciativa, contamos com um catador antigo da cidade – Raimundo Caboclo – e mais 11 associados. A maioria deles estava sem trabalho antes do projeto", conta Suerda Cristina, presidente da associação.
Todos os associados receberam treinamento do Sebrae, através do projeto Pró-Catadores. Para Suerda, a preservação do meio ambiente é um dos objetivos mais importantes da iniciativa. "Estamos muito felizes. Todos nós acreditamos muito nos benefícios desse projeto, afinal, lixo é ouro", afirma ela.
Ampliação do impacto em 2026
Para o ano de 2026, a meta do Sebrae é atender, por meio do Pró-Catadores, 630 catadores, 40 organizações e 45 municípios, com consultorias, capacitações e rodadas de negócios. Segundo Mabele Dutra, analista do Sebrae/RN, dentre as ações planejadas para este ano estão o mapeamento da cadeia de reciclagem no estado e consultorias para ampliação de portfólio das organizações de catadores.
"O Pró-Catadores capacita para ampliar a visão de negócio, identificação de produtos com maior valor agregado, melhores técnicas e argumentos de negociação, bem como para expandir as oportunidades de relacionamento com a cadeia", detalhou Mabele.
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