SAÚDE MENTAL INFANTIL

Psicóloga Maria Clara Dantas orienta pais a identificar sinais de sofrimento em crianças além das birras

Psicóloga Maria Clara Dantas em entrevista
Psicóloga Maria Clara Dantas em entrevista sobre saúde mental infantil.

Especialista alerta sobre a importância de observar persistência de comportamentos e sofrimento emocional para buscar ajuda profissional.

Pais e responsáveis que se deparam com mudanças de comportamento, crises de birra, uso excessivo de telas, dificuldades escolares e alterações no sono em seus filhos agora têm um guia mais claro para entender a saúde mental infantil. A psicóloga Maria Clara Dantas ofereceu orientações detalhadas nesta segunda-feira, 06/07/2026, sobre como diferenciar comportamentos típicos do desenvolvimento de sinais que podem indicar sofrimento psicológico e demandar acompanhamento profissional. O principal critério, segundo ela, é a persistência das mudanças comportamentais e a presença de sofrimento emocional associado.

Diferenciar uma fase de desenvolvimento de um alerta para a saúde mental é crucial. A psicóloga Maria Clara Dantas explica que nem toda alteração de comportamento em crianças, especialmente até os seis anos, caracteriza um transtorno. Birras, por exemplo, são parte do aprendizado infantil na lida com frustrações, limites e a gestão de emoções, habilidades que se desenvolvem com o tempo.

“Quando a gente fala de comportamento, de mudança de comportamento infantil, é sempre importante a gente se atentar se ele vem acompanhado de algum tipo de sofrimento. Toda mãe, todo pai conhece seu filho. Toda mãe, todo pai sabe quando a criança realmente está sofrendo, quando realmente está incomodada, quando realmente está nervosa. Quando essa mudança de comportamento vem acompanhada desses sinais de sofrimento, a gente deve realmente procurar ajuda”, afirmou a especialista.

A observação atenta da persistência do comportamento, mesmo após intervenções familiares, e a percepção de alterações pela escola, são fatores determinantes. A escola, com profissionais que acompanham o desenvolvimento infantil, pode oferecer insights valiosos sobre o comportamento da criança em um ambiente diferente do familiar.

“Quando a gente percebe também que aquele comportamento não melhora, a gente intervém em casa e, mesmo assim, não tem uma melhora. A escola avisa, a escola é sempre muito atenta a esses sinais, são profissionais que conhecem as etapas do desenvolvimento. Quando a escola comunica que alguma coisa está saindo do controle, essas conversas são extremamente construtivas e importantes para poder identificar.”

Birras são parte do desenvolvimento infantil

Durante a conversa, Maria Clara Dantas abordou a questão das birras, comuns quando a criança é contrariada. Ela reforçou que esse comportamento é esperado na primeira infância, até os seis anos, período em que a criança ainda está desenvolvendo a capacidade de comunicar suas emoções e desejos, e de lidar com a frustração, uma habilidade que se constrói ao longo da vida.

A psicóloga explicou que, por vezes, a criança utiliza o choro e gritos como forma de obter o que deseja, por perceber que tais reações podem ser eficazes. “A criança lê o ambiente. Ela sabe que, se chorar no supermercado, por exemplo, pode constranger os pais e conseguir o que quer. É importante que os pais sejam firmes, conversem, tentem mudar o foco da atenção da criança e não respondam com estresse.” A orientação é redirecionar a atenção da criança para outras atividades, em vez de confrontar.

Impacto das telas e redes sociais no desenvolvimento

O uso excessivo de telas, incluindo redes sociais e jogos eletrônicos, foi outro ponto de atenção. Maria Clara Dantas alertou que essa exposição pode prejudicar significativamente o desenvolvimento emocional e social de crianças e adolescentes. “A rede social está piorando bastante a nossa saúde mental de maneira geral. E a criança ainda está em desenvolvimento, está aprendendo conceitos, está aprendendo a se localizar no mundo.”

Ela destacou que muitos conteúdos voltados ao público infantil e juvenil incentivam padrões de consumo e comparações prejudiciais. “É muito comum os conteúdos dos youtubers serem voltados para essa questão de ‘eu tenho e você não tem’, ‘eu viajei para Disney e você não foi’. Isso incentiva comportamentos que não são saudáveis.” Esses efeitos podem ser ainda mais acentuados em crianças com transtornos do neurodesenvolvimento.

“Já presenciei casos de crianças autistas que se fecharam completamente no mundo dos jogos online e passaram a evitar as interações sociais reais. A gente percebe que há um problema e precisa trabalhar isso.”

A importância de limites e acompanhamento parental

Estabelecer limites claros e consequências para as ações é fundamental para que a criança compreenda que suas escolhas geram resultados. A psicóloga enfatizou a necessidade de os pais acompanharem o tempo de tela e o conteúdo acessado pelos filhos. “A criança precisa entender que existe um limite. É importante conversar e manter o combinado. Toda a nossa vida tem consequências, e a gente aprende isso ainda na infância.”

Em relação a comportamentos como isolamento social na escola, que podem gerar dúvidas sobre autismo, Maria Clara Dantas ressaltou que o diagnóstico é complexo e não se baseia em um único sinal. “O diagnóstico de autismo não é tão simples assim. Vale a pena investigar junto com a escola o que está acontecendo.”

A colaboração entre família, escola e profissionais de saúde é essencial para identificar a origem das dificuldades. A psicóloga orienta pais a buscarem ajuda profissional qualificada diante de alterações comportamentais persistentes em seus filhos.

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