SAÚDE E TRABALHO

Presenteísmo: trabalhar doente torna-se regra perigosa no Brasil

Homem exausto em ambiente de escritório segurando a cabeça como sinal de burnout.
Trabalhar doente é uma realidade para a maioria dos brasileiros, afetando a produtividade e a saúde a longo prazo.

Pesquisas indicam que a maioria dos profissionais mantém atividades mesmo com recomendação de repouso, elevando riscos de acidentes e agravamento de doenças.

Ignorar sintomas físicos e mentais para cumprir jornadas exaustivas tornou-se uma prática recorrente no mercado brasileiro, fenômeno conhecido como presenteísmo. O comportamento, caracterizado pela permanência do trabalhador no posto de mesmo sem condições de saúde adequadas, gera prejuízos profundos tanto para a produtividade das empresas quanto para a integridade física e psicológica do colaborador.

André Cabral, de 45 anos, vivenciou as consequências extremas dessa cultura. Com uma carreira consolidada no setor de bares e restaurantes em São Paulo, ele frequentemente excedia 12 horas diárias de trabalho. Mesmo após enfrentar 21 dias internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por causa da Covid-19, retornou às atividades apenas quatro dias após a alta. A sobrecarga resultou em um quadro severo de burnout, hipertensão e a dependência de medicamentos, culminando em um acidente de trabalho que precede um litígio judicial contra seu antigo empregador.

O impacto do presenteísmo na dignidade do trabalhador é severo. A pressão para produzir impede o repouso necessário, transformando o ambiente corporativo em um espaço onde a doença é mascarada por e-mails e reuniões presenciais. Segundo a advogada trabalhista Elisa Alonso, quando o empregador ignora atestados médicos, coloca em risco a própria recuperação do funcionário e desrespeita normas básicas de segurança ocupacional.

Dados da Heach Recursos Humanos revelam que 70,3% dos brasileiros já trabalharam mesmo sabendo que deveriam estar em repouso. O Censo de Saúde Mental 2025 da Vittude corrobora a gravidade do cenário, identificando que o presenteísmo afeta 32% dos profissionais avaliados. Para os especialistas, a reversão desse quadro exige uma mudança cultural profunda nas organizações, onde a liderança deve ser preparada para identificar sinais de esgotamento e priorizar a saúde antes que o comprometimento da capacidade produtiva se torne irreversível.

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