ECONOMIA REAL
Por que sua renda não alcança a alta dos preços, segundo o BC
Entenda os fatores que explicam a distância entre a inflação oficial e a realidade do bolso do brasileiro, com alimentos que subiram 64,35% em 6 anos.
A persistente sensação de que a renda no Brasil não acompanha o custo de vida, mesmo diante da estabilidade dos indicadores oficiais de preços, foi abordada com preocupação pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, na última quarta-feira, 13 de maio de 2026. Durante a 4ª Conferência Anual da instituição, Galípolo ressaltou a crescente lacuna entre os dados macroeconômicos e a dura realidade enfrentada pelos cidadãos, um cenário que impacta diretamente a dignidade das famílias e pode abalar a confiança na autoridade monetária.
Especialistas detalham a complexidade desse fenômeno. Segundo Rodrigo Simões, diretor da Faculdade de Comércio de São Paulo (FAC-SP), três fatores cruciais impedem que os salários acompanhem a escalada dos preços: a baixa qualificação da força de trabalho, a produtividade estagnada que exige mais horas de labor do brasileiro, e uma economia que ainda se mantém relativamente fechada ao mercado global. "Não somos, de fato, uma economia aberta, como a de muitos países. Esses três pontos são os que tornam um país rico. A produção no mundo inteiro cresce, mas, onde houve menos investimento em educação, tecnologia, fábricas e desenvolvimento local, a população sofre porque não consegue dar uma 'estilingada' na renda", explica Simões, sintetizando o impacto direto na vida das pessoas. Essa dinâmica, para ele, é o motor da percepção de que a inflação permanece descontrolada.
Heron do Carmo, professor sênior da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP) e ex-coordenador do IPC-Fipe, complementa que o comportamento do consumo explica grande parte dessa sensação. As pessoas não percebem a inflação em sua totalidade, mas sim através dos preços dos produtos essenciais e mais frequentes em seu dia a dia. "Quando há muita volatilidade, isso perturba. E não é só no Brasil", observa, comparando a situação com o incômodo de consumidores nos EUA com alimentos e gasolina. Ele exemplifica: "Se você pegar um Uber ou um táxi, certamente o motorista vai reclamar do preço da gasolina, que é algo que ele compra todo dia. Para quem não tem carro, essa inflação vai bater diferente." Segundo Carmo, a elevação de preços em itens básicos comprados em supermercados, farmácias e padarias tem um peso muito maior na percepção, ofuscando eventuais quedas em outros setores. "Se sobe o preço de alguma coisa, isso constrange o padrão de vida das pessoas", resume o professor, evidenciando o efeito direto na qualidade de vida.
O economista Alexandre Maluf, da XP Investimentos, corrobora que a disparidade entre a percepção popular e os indicadores não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, intensificado após o choque da pandemia, que elevou o patamar geral de preços. "As pessoas comparam quanto gastavam antes para comprar uma quantidade de produtos e quanto precisam gastar hoje para comprar a mesma quantidade", afirma. Maluf ainda aponta o endividamento familiar como um agravante, pois compromete uma parcela ainda maior da renda e força cortes em despesas cruciais. Ele cita um estudo do Ipea que registrou desinflação de alimentos entre 2023 e 2025, mas, mesmo assim, a percepção de "tudo mais caro" persiste, mostrando a complexidade da situação enfrentada por milhões de famílias.
Heron e Maluf alertam para as nuances entre os índices de inflação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), balizador das decisões do Banco Central, abrange famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos e, por ser o índice oficial, domina o noticiário e o debate público. Contudo, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) foca em rendas de 1 a 5 salários mínimos. Por sua maior sensibilidade a itens básicos como alimentação e transporte, o INPC frequentemente espelha com mais precisão a inflação sentida pelas camadas de menor renda. A menor visibilidade do INPC em relação ao IPCA, entretanto, amplia a distância entre a discussão pública e a vivência econômica cotidiana dessas famílias mais vulneráveis.
A preocupação de Galípolo reflete essa realidade. Na Conferência Anual do Banco Central, ele manifestou apreensão com a percepção social da inflação, citando uma série de eventos recentes – a pandemia, a guerra na Ucrânia, a guerra tarifária dos EUA e a alta do petróleo devido ao conflito no Oriente Médio – como fatores que elevaram o nível acumulado de preços. Esse cenário, segundo ele, pode comprometer a credibilidade do BC perante a população. Galípolo destacou que a credibilidade da instituição sempre esteve ligada à manutenção das expectativas de inflação ancoradas. Contudo, um "problema novo" surgiu: mesmo com a inflação corrente mais controlada, as famílias sentem um custo de vida crescente no dia a dia. Ele lembrou que o BC reduziu a inflação de 12,13% em abril de 2022 para 4,39% em abril de 2026. No entanto, o IPCA acumula uma alta de 42,78% desde janeiro de 2020, e os alimentos no domicílio subiram expressivos 64,35%, impactando desproporcionalmente os mais pobres. O presidente do BC também ponderou que, embora bancos centrais tendam a considerar a alta do petróleo como um choque transitório, a terminologia não resolve a questão central: como as pessoas percebem o aumento acumulado dos preços e como a autoridade monetária deve agir para enfrentar essas "tempestades" sem comprometer o controle inflacionário. A discussão sublinha o desafio de comunicar a estabilidade econômica enquanto milhões de brasileiros lutam para fechar as contas.
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