GIGANTES DO ABISMO

Polvos gigantes de até 19 metros dominavam mares pré-históricos, revela estudo

Ilustração artística de um polvo gigante pré-histórico nadando no oceano.
Polvos gigantes de até 19 metros eram predadores vorazes nos oceanos no Período Cretáceo.

Fósseis de mandíbulas revelam que polvos do Período Cretáceo eram predadores de topo, com até 19 metros de comprimento, superando espécies atuais em tamanho e poder.

Os oceanos da Terra, durante o Período Cretáceo, foram palco de uma vida marinha surpreendente e colossal. Uma nova pesquisa paleontológica, publicada neste sábado, 23/05/2026, revelou que os primeiros polvos com barbatanas (subordem Cirrata) atuavam como predadores de topo, com tamanhos que variavam de 7 a impressionantes 19 metros. Essa descoberta, baseada na análise de mandíbulas fossilizadas com 100 a 72 milhões de anos, desafia a percepção de que apenas grandes vertebrados dominavam a cadeia alimentar marinha naquela era.

A pesquisa, conduzida por uma equipe internacional de cientistas, descreve essas criaturas marinhas ancestrais a partir de fósseis encontrados em sedimentos do Japão e da Ilha de Vancouver. Ao analisar os restos, foram identificadas duas espécies principais de polvos gigantes: *Nanaimoteuthis jeletzkyi*, que atingia de 2,8 a 7,7 metros, e *Nanaimoteuthis haggarti*, com um comprimento estimado de 6,6 a 18,6 metros. Esses achados indicam que o *N. haggarti* rivalizava em tamanho com os maiores peixes ósseos e répteis marinhos do período, como plesiossauros e mosassauros, podendo representar os maiores invertebrados já descritos pela ciência.

Embora o corpo mole dos polvos se decomponha rapidamente, a evolução deixou pistas em suas mandíbulas de quitina endurecida. O estudo detalhou marcas de desgaste severo nessas estruturas, indicando que esses cefalópodes eram caçadores vorazes, não meras presas. Os padrões de desgaste sugerem que os Cirrata gigantes do Cretáceo Superior esmagavam ativamente conchas duras e ossos para se alimentar. A análise digital revelou que, em vez de bocas descomunais, esses polvos utilizavam seus longos e flexíveis braços tentaculares para dominar presas e levá-las às suas poderosas mandíbulas.

Um achado particularmente intrigante é a assimetria na perda de material nas mandíbulas, sugerindo que os predadores mastigavam e operavam suas presas preferencialmente por um lado. Comportamentos lateralizados em animais modernos estão associados a cérebros complexos e alta cognição. Isso aponta para uma inteligência avançada nesses polvos ancestrais, capazes de desenvolver estratégias de caça elaboradas nos antigos oceanos.

O biólogo Leandro Alves, especialista em biologia marinha, contextualiza a importância da descoberta ao afirmar que a inteligência dos polvos é uma área de grande interesse científico. Ele questiona o que ocorreria se essas criaturas, conhecidas por sua inteligência, vivessem por décadas, em vez de apenas alguns anos. Ao longo de milhões de anos, os cefalópodes abdicaram de conchas protetoras em favor de mobilidade e de um desenvolvimento cognitivo expandido.

A pesquisa conclui que a combinação de mandíbulas poderosas e a perda de esqueletos externos transformou convergentemente cefalópodes e vertebrados marinhos em predadores de grande porte e inteligência. Os mares do Cretáceo, portanto, foram dominados não apenas por criaturas de couraça e escamas, mas também pelos geniais e gigantescos tentáculos do abismo marinho.

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