IMPOPULARIDADE RECORD

Políticas de Donald Trump derrubam aprovação do presidente, aponta Reuters

Donald Trump após retornar da China, em 15 de maio de 2026.
Donald Trump após retornar da China, em 15 de maio de 2026 — Foto: ALEX WROBLEWSKI / AFP

Levantamentos de maio de 2026 mostram desaprovação acima de 60%; economia e conflitos afetam diretamente o eleitor americano.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrenta uma severa crise de impopularidade, com sua desaprovação superando 60% há quase dois meses. Levantamentos recentes da Reuters e do instituto Ipsos, divulgados entre o fim de abril e 11 de maio de 2026, mostram que a percepção pública sobre o líder republicano despencou devido a políticas econômicas controversas, como o tarifaço e a guerra com o Irã, e uma série de crises de imagem. Essa deterioração da confiança popular não apenas ameaça as chances do Partido Republicano nas eleições legislativas de novembro, mas também projeta impactos significativos na economia global e nas relações internacionais.

A desaprovação do mandatário norte-americano está acima de 60% há quase dois meses, um sinal de alerta para o Partido Republicano. Em menos de seis meses, os cidadãos dos Estados Unidos irão às urnas para renovar quase todo o Congresso. Uma derrota nas urnas poderia dificultar significativamente a vida política do presidente, que atualmente vê seu partido controlar a Câmara e o Senado por margem pequena. Pesquisas recentes indicam que o Partido Democrata, oposição, emerge como favorito para retomar ao menos a Câmara.

Diante desse risco iminente, Trump tem articulado estratégias distintas para tentar frear a impopularidade. Entre essas ações, destaca-se a pressão exercida sobre estados mais conservadores para que redesenhem os mapas eleitorais, visando favorecer candidatos republicanos nas eleições legislativas.

O mais recente levantamento da Reuters, datado de 11 de maio de 2026, aponta que apenas 36% dos norte-americanos aprovam o trabalho de Trump, enquanto 63% o desaprovam. A pesquisa possui uma margem de erro de três pontos percentuais. Esse índice, ligeiramente superior à mínima histórica de 34% de aprovação registrada no fim de abril de 2026 – quando a desaprovação atingiu 64% – ainda reflete um cenário crítico.

A avaliação de Trump hoje é tão negativa quanto a enfrentada pelo governo anterior, de Joe Biden, no pior momento. Em outubro de 2024, semanas antes das eleições presidenciais vencidas por Trump, Biden contava com a aprovação de apenas 35% dos americanos. Contudo, a avaliação negativa do democrata nunca superou a marca de 60%, de acordo com os levantamentos da Reuters.

Os dados revelam uma piora na percepção de Trump à medida que o presidente avançou com pautas que impactaram diretamente o poder de compra do eleitor americano. A curva de aprovação começou a declinar após o anúncio de um tarifaço em abril de 2025 contra dezenas de países, elevando os custos de produtos para as famílias.

Paralelamente, a imagem do presidente foi abalada por crises significativas. O vaivém envolvendo os arquivos da investigação do caso do abusador Jeffrey Epstein e as mortes de cidadãos americanos em operações antimigratórias geraram fortes críticas, ecoando até mesmo entre seus próprios apoiadores.

Carlos Gustavo Poggio, professor de relações internacionais e especialista em política dos EUA, identifica a guerra com o Irã como a "gota d’água". A ofensiva militar lançada em fevereiro de 2026 fez o preço do barril de petróleo atingir recordes, elevando os custos dos combustíveis e atingindo de forma contundente o bolso dos americanos. "Isso atinge diretamente o americano e consolidou esse movimento de queda na aprovação", explica Poggio. "A questão central que explica a aprovação baixa do Donald Trump hoje é a economia."

Por que Trump se tornou impopular?

Poggio detalha que Trump foi eleito em 2024 a partir de um "acordo tácito" com o eleitorado. Naquela época, uma parcela da sociedade norte-americana aceitava a volta do republicano, desde que ele entregasse resultados econômicos positivos – um ponto fraco percebido no governo Biden.

  • Um dos lemas da campanha presidencial de Trump foi "America First", ou "Estados Unidos em primeiro lugar".
  • O então candidato também criticou a forma como Biden conduzia a política externa, especialmente pelo envolvimento dos EUA em conflitos como a guerra entre Ucrânia e Rússia.
  • Contudo, após seu retorno à Casa Branca, Trump se viu envolvido em novos conflitos internacionais, e a inflação voltou a subir.

“As pessoas estavam dispostas a aceitar o comportamento de Donald Trump, que é pouco presidenciável. Por si só, ele é bastante nefasto, por uma série de questões como civilidade, democracia e outras. Mas não era com isso que as pessoas estavam preocupadas”, argumenta Poggio. “Se a economia estivesse indo bem, as pessoas não se importariam tanto com o fato de ele querer construir um salão de festas na Casa Branca, por exemplo. Mas com a economia indo mal, isso tudo ganha uma outra interpretação.”

Um levantamento da Reuters divulgado em 11 de maio de 2026 mostra que 64% dos norte-americanos desaprovam a maneira como Trump conduz a economia. Este é o pior resultado do republicano em seus dois mandatos. No fim de abril de 2026, a aprovação de Trump na área econômica atingiu 27%, o índice mais baixo já registrado para ele na série histórica Reuters/Ipsos. Esse número ficou abaixo do pior momento de Biden, que obteve 32% em janeiro e maio de 2023, além de dezembro de 2024.

O impacto na corrida eleitoral

Uma pesquisa Ipsos, encomendada pelo jornal The Washington Post e pela rede americana ABC, divulgada em 27 de abril de 2026, indicou que Trump registra a pior aprovação aos 100 dias de governo entre todos os presidentes americanos dos últimos 80 anos.

A contínua queda de popularidade já começa a moldar o cenário eleitoral. Nas eleições locais de novembro de 2025, os democratas conquistaram vitórias importantes, incluindo a eleição do socialista democrata Zohran Mamdani para a prefeitura de Nova York – mesmo com o envolvimento direto de Trump na disputa, que fez campanha contra o candidato.

Eleições especiais recentes também evidenciaram o avanço democrata. Em abril de 2026, o site especializado Politico publicou uma análise que apontava que candidatos democratas tiveram, em média, um desempenho 5 pontos percentuais superior ao registrado pelo partido na eleição presidencial de 2024.

Pesquisas recentes sugerem que os democratas podem chegar às chamadas "Midterms" em posição de vantagem. As eleições legislativas, marcadas para 3 de novembro de 2026, renovarão toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado americano.

  • A plataforma Race to the WH, do jornalista político Logan Phillips, projeta que os democratas atualmente possuem mais de 70% de chance de retomar o controle da Câmara.
  • O Senado, no entanto, deve permanecer sob controle republicano.
  • O levantamento de Phillips foi realizado com base em uma média de diversas pesquisas.

Para o professor Carlos Gustavo Poggio, será extremamente difícil para Trump reverter esse cenário até novembro de 2026. "Quanto mais tempo os preços continuarem altos, principalmente os da gasolina, e sem nenhum sinal de queda forte no horizonte, mais difícil fica qualquer reversão", analisa Poggio. "Acho que começa a se consolidar entre os americanos a ideia de que eles não querem dar mais poder para Donald Trump."

Os efeitos de Trump no mundo

Devido ao peso dos Estados Unidos no cenário global, as decisões internas de Trump inevitavelmente reverberam em outros países, incluindo o Brasil. Ao mesmo tempo, o presidente tem impulsionado uma agenda intervencionista com efeitos diretos sobre governos estrangeiros.

  • Exemplos incluem o tarifaço, a operação que resultou na captura de Nicolás Maduro na Venezuela e as ameaças de anexar a Groenlândia e o Canadá.

No ano passado, levantamentos indicaram que líderes que foram alvo de ataques de Trump acabaram por ganhar apoio popular, ainda que momentaneamente. Em contrapartida, governantes vistos como próximos do presidente americano não tiveram a mesma sorte.

O caso da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, ilustra essa dinâmica. Meloni chegou a ser vista como uma possível ponte entre EUA e Europa em um período em que Trump ameaçava o continente com tarifas. Contudo, a aproximação com Trump se tornou um problema político interno para Meloni. Em março de 2026, a premiê sofreu uma dura derrota na Itália, em meio ao desgaste provocado pela guerra no Irã e pela impopularidade do presidente americano no país.

  • Pesquisas revelaram que os italianos não apoiavam a ofensiva norte-americana.
  • Meloni declarou que a Itália não participaria da guerra e recusou-se a permitir que caças americanos utilizassem uma base aérea na Sicília em operações de combate contra o Irã.
  • Ainda assim, ela foi derrotada em um referendo sobre a reforma judicial. O resultado fortaleceu a oposição, que vinha enfrentando dificuldades para reagir ao governo.

Em abril de 2026, Meloni criticou Trump após o presidente americano trocar farpas com o papa Leão XIV. Analistas interpretaram esse movimento como uma tentativa da premiê de se distanciar do republicano e, assim, mitigar o desgaste entre os eleitores italianos insatisfeitos com as políticas dos EUA.

No que tange à guerra contra o Irã, os impactos transcenderam a esfera política. A ofensiva liderada por EUA e Israel afetou o mundo inteiro depois que Teerã fechou o Estreito de Ormuz. O preço da energia disparou globalmente, já que um quinto da produção mundial de petróleo passa por essa rota marítima estratégica.

O Brasil também sentiu os efeitos, embora em menor escala que a Europa. O país é autossuficiente em petróleo, mas ainda depende da importação de derivados. Mesmo assim, a inflação de abril de 2026 foi a mais alta para o mês em quatro anos, diretamente pressionada pelos efeitos da guerra. Tudo isso ocorre em um ano eleitoral para os brasileiros.

Carlos Gustavo Poggio sugere que possíveis impactos das ações de Trump nas eleições brasileiras deverão decorrer das consequências econômicas das turbulências internacionais, especialmente por causa do preço do petróleo. "Agora ainda não está claro o quanto isso vai atingir de fato o Brasil. O país está em uma situação muito melhor do que outros, como Japão e países europeus, que já estão sentindo bastante esse aumento no preço da energia", afirma Poggio. "Então qualquer impacto político no Brasil virá de alguma consequência econômica, se ela acontecer."

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