DIVISÃO NACIONAL

Polarização política atinge Seleção Brasileira antes da Copa

Neymar com a camisa da Seleção Brasileira, simbolizando o debate sobre sua convocação para a Copa do Mundo de 2026 e a polarização política no Brasil.
Neymar, em destaque, é o centro de um debate que transcende o esporte e divide opiniões sobre sua presença na Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 2026.

Pesquisa mostra que 47% dos brasileiros defendem a convocação de Neymar; oposição atinge 50% entre apoiadores de Lula.

A convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 2026, com anúncio marcado para esta segunda-feira, 18 de maio de 2026, ganhou uma camada de tensão política sem precedentes. O debate público sobre a inclusão ou ausência de Neymar na lista, que cabe unicamente ao técnico, transcendeu o campo esportivo e reflete a polarização ideológica que divide o Brasil. Isso evidencia como a política contamina até mesmo a paixão pelo futebol, transformando um momento que deveria ser de união nacional em palco de discórdia.

O retorno de Neymar ao Santos reacendeu o debate sobre sua condição física e técnica para disputar mais uma Copa. Contudo, a discussão não se limita mais aos gramados. Assim como ocorre com diversos temas no Brasil, a possível participação de Neymar na Seleção Brasileira tornou-se um ponto de atrito político, dividindo apoiadores da direita e da esquerda.

Nos últimos anos, o atacante passou a ser associado publicamente a setores da direita brasileira, especialmente após demonstrar apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro durante as eleições de 2022. A partir daí, Neymar deixou de ser visto apenas como um ídolo do futebol e passou também a ser interpretado politicamente por parte da população, um ícone do esporte nacional que agora se vê arrastado para a arena política, fragmentando a percepção dos torcedores.

Polarização em campo

O cientista político Christian Lohbauer avalia que a polarização política no Brasil ultrapassou o ambiente tradicional das disputas eleitorais, atingindo espaços historicamente ligados à identidade nacional, como a Seleção Brasileira. Segundo ele, o posicionamento público de Neymar em apoio a Bolsonaro transformou o atacante em um dos principais símbolos desse processo. Para Lohbauer, o cenário político mudou não apenas pelo aumento da polarização, mas também pela forma como atletas, artistas e celebridades passaram a ser automaticamente associados a campos ideológicos específicos.

“Hoje, qualquer atleta ou artista que manifesta apoio a algum lado passa a carregar junto uma rejeição automática do outro campo político”, afirma o especialista. Na avaliação de Lohbauer, Neymar acabou inserido nesse contexto justamente por ser uma das personalidades mais populares do país. O apoio declarado ao bolsonarismo fez com que o jogador deixasse de ser visto apenas como um ídolo esportivo e passasse também a representar um posicionamento político dentro da disputa ideológica brasileira.

Para o cientista político, a imagem do atacante hoje reflete não apenas debates sobre futebol, mas também as divisões políticas e sociais que marcam a sociedade brasileira, minando a capacidade do esporte de ser um elo comum.

Afinal, Neymar na Copa?

  • Uma pesquisa Genial/Quaest, realizada entre os dias 10 e 13 de abril de 2026, mostra que 47% dos brasileiros defendem a convocação de Neymar, enquanto 45% são contrários. O estudo ouviu 2.004 pessoas presencialmente em todo o país, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
  • Entre os eleitores que se declaram de direita não bolsonarista, 58% defendem a convocação. Já entre os que se identificam como de esquerda não lulista, a maioria é contrária à presença do jogador.
  • Entre apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 45% apoiam a convocação e 50% são contrários. Já entre bolsonaristas, o apoio chega a 57%, maior percentual do grupo analisado.

Paralelamente a este cenário de opiniões divididas, o deputado federal Hélio Lopes (PL) encaminhou um ofício à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), solicitando formalmente a convocação de Neymar Jr. para a Copa do Mundo de 2026. No documento, o parlamentar afirma que Neymar “não é apenas um jogador”, mas “o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira e um símbolo de talento, criatividade, superação e esperança para milhões de torcedores”, reforçando a ideia de que o atleta transcende o esporte.

Amar ou odiar, a polarização decide

Para o doutor em ciência política Leandro Gabiati, o debate sobre amar ou odiar Neymar está fortemente contaminado pela polarização política atual. A apropriação de símbolos nacionais pela direita, como a bandeira e a camisa da Seleção Brasileira, estigmatizou esses itens e afastou parte do público de se identificar com o “universo da Seleção”.

Gabiati esclarece que, embora o cenário político tenha influenciado o distanciamento de torcedores durante o ciclo preparatório para a Copa do Mundo, a tendência é que as pessoas voltem a torcer pela “Canarinho” assim que o mundial começar, mesmo com as divisões persistindo em um segundo plano.

“Acaba que a gente observa discussões em grupo, em redes sociais, e você detecta de fato que aqueles que se identificam mais com a direita defendem a convocação do Neymar, enquanto a turma mais da esquerda entende que o atleta não deveria ser convocado”, pontua o especialista, ilustrando a clivagem ideológica manifestada na internet.

Neymar e as eleições brasileiras

Desde a estreia de Neymar como jogador profissional de futebol em 2009, o Brasil já passou por quatro eleições gerais. Com apenas 18 anos, o jovem atleta do Santos não se posicionou na disputa presidencial entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB).

Em 2014, o atacante foi o camisa 10 do Brasil em seu primeiro mundial. No campo, Neymar se lesionou nas quartas de final contra a Colômbia, ficando fora do fatídico 7×1, em pleno Mineirão. Alguns meses depois, o então jogador do Barcelona declarou voto aberto em Aécio Neves (PSDB).

“Eu vou apoiar o candidato Aécio Neves porque me identifico muito com a proposta que ele tem para o Brasil. Mas tenho a certeza que seja qual for o resultado de domingo, eu continuarei à disposição do meu país e do presidente eleito pelo povo”, disse o atacante em vídeo divulgado nas redes sociais na época.

No pleito seguinte, Neymar não tomou partido. Já em 2022, o atleta se envolveu diretamente, apoiando abertamente Bolsonaro e até participando de transmissões ao vivo durante a campanha do ex-presidente, solidificando sua imagem como figura política e não apenas esportiva.

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