FRAUDE FINANCEIRA EXPOSTA

PF descobre "plano B" do Master antes de venda ao BRB

Agentes da Polícia Federal durante a deflagração da 6ª fase da Operação Compliance Zero.
PF deflagrou a 6ª fase da Operação Compliance Zero na quinta-feira, 14 de maio de 2026. A etapa apreendeu o documento sobre o plano alternativo para o Banco Master. Imagem: Reprodução/PF

Documento apreendido na Operação Compliance Zero revela tentativas anteriores de venda. Caso envolve R$ 12,2 bilhões em negociações suspeitas.

A Polícia Federal descobriu um "plano B" detalhado para a venda do Banco Master, uma alternativa à negociação com o BRB (Banco de Brasília), que agora está sob intensa investigação. A revelação, que emergiu da 6ª fase da Operação Compliance Zero deflagrada na quinta-feira, 14 de maio de 2026, é crucial para desvendar a cronologia e as intenções por trás de uma complexa teia de supostas fraudes que envolve R$ 12,2 bilhões e ameaça a credibilidade do Sistema Financeiro Nacional.

O documento, localizado pela Polícia Federal durante a 6ª fase da Operação Compliance Zero, revela que o Banco Master explorava um "plano B" para sua venda antes mesmo de iniciar tratativas com o BRB (Banco de Brasília). Esta fase da operação, deflagrada na quinta-feira, 14 de maio de 2026, resultou no cumprimento de 7 mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Entre os detidos está Henrique Vorcaro, pai do ex-controlador do Banco Master Daniel Vorcaro.

Daniel Vorcaro enviou o material ao ex-sócio Augusto Lima em 10 de abril de 2025. O "plano B" detalhava uma cisão parcial do Master, com o envolvimento do BTG Pactual, o apoio estratégico do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) e a eventual transferência de ativos para uma estrutura sob o controle do BRB.

Embora a venda do Master ao BRB tenha sido anunciada em 2025, o Banco Central a barrou. A PF iniciou a Operação Compliance Zero em novembro de 2025 para investigar a transação, suspeita de envolver fraudes na negociação de carteiras de crédito sem lastro – ou seja, ativos financeiros sem a devida garantia ou lastro real, prejudicando a transparência e a segurança do mercado. A apuração visa crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.

Os investigadores afirmam que o Banco Master teria constituído carteiras de crédito fictícias, sem lastro, e então as teria vendido ao BRB. O Ministério da Justiça complementa que, após uma fiscalização do Banco Central, esses créditos foram supostamente substituídos por ativos desprovidos de uma avaliação técnica apropriada.

O "PLANO B" REVELADO

O documento apreendido pela PF é crucial por detalhar uma alternativa à venda do Master ao BRB. A existência desse "plano B" é vista como altamente relevante para a investigação, pois pode auxiliar na reconstituição da linha do tempo das negociações conduzidas pelo grupo de Daniel Vorcaro antes da controversa operação com o banco público.

A apuração da Polícia Federal procura determinar se a negociação final foi estruturada após outras tentativas de venda ou reorganização dos ativos do Master. O ponto focal é precisar quando os executivos do banco começaram a considerar a operação com o BRB e quais eram as condições financeiras debatidas em propostas anteriores.

Este caso também desperta grande interesse dos investigadores, visto que a venda ao BRB se tornou uma das frentes mais importantes na crise do Banco Master. A PF busca esclarecer se o BRB de fato adquiriu carteiras de crédito fraudulentas do Master e qual foi a extensão da participação de executivos de ambas as instituições nessa operação.

A CRÍTICA OPERAÇÃO COM O BRB

O Banco Central barrou a compra do Banco Master pelo BRB em setembro de 2025. A autoridade monetária negou a aprovação da operação, que foi apresentada como uma estratégia para expandir a atuação do banco público de Brasília no mercado financeiro nacional.

Naquele período, o BRB solicitou acesso completo à decisão para analisar os fundamentos da negativa e as opções legais disponíveis. A instituição defendia que a transação representava uma "oportunidade estratégica com potencial de geração de valor" para o próprio banco, seus clientes e para o Sistema Financeiro Nacional. O fato relevante completo (PDF – 145 kB) está disponível para consulta.

A decisão do Banco Central de barrar a venda coincidiu com as tentativas de deputados de ampliar as possibilidades de demissão de integrantes da autoridade monetária. Em 2021, a lei foi aprovada na Câmara com 339 votos a favor e 114 contra. Mais de quatro anos depois, diversos congressistas defendem a revisão de pontos dessa legislação.

Atualmente, a demissão de dirigentes do Banco Central é restrita a quatro circunstâncias:

  • a pedido do próprio servidor;
  • em caso de doença que incapacite o indivíduo para o exercício do cargo;
  • se houver condenação por improbidade administrativa ou crime que o impeça de acessar cargos públicos;
  • e se for constatado desempenho insuficiente, de forma comprovada e recorrente, para o alcance dos objetivos da instituição.

Entretanto, congressistas buscam adicionar uma quinta hipótese de demissão. Um requerimento de urgência, assinado por sete deputados, detalha essa proposta e pode ser acessado na íntegra (PDF – 382 kB).

Após a rejeição da operação, o caso rapidamente se tornou uma das principais linhas de investigação da Operação Compliance Zero. A Polícia Federal afirma que a apuração se concentra na venda de carteiras de crédito consideradas falsas do Banco Master ao BRB. O montante total das operações sob suspeita atinge a alarmante cifra de R$ 12,2 bilhões.

A PF também aprofunda as investigações sobre possíveis crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, ameaça, invasão de dispositivos informáticos e violação de sigilo funcional.

A ABRANGÊNCIA DA COMPLIANCE ZERO

A Operação Compliance Zero foi deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025. A investigação tem como alvo principal as fraudes contra o Sistema Financeiro Nacional, com especial foco na emissão e negociação de títulos de crédito falsos por diversas instituições financeiras.

Na sua 1ª fase, a PF cumpriu 7 mandados de prisão e 25 de busca e apreensão no Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Minas Gerais. Além disso, houve o bloqueio de R$ 1,3 bilhão em bens e o afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, conforme informações do Ministério da Justiça.

Atualmente, a investigação está sob a relatoria do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal). Ele assumiu o caso em fevereiro, sucedendo Dias Toffoli, que solicitou sua saída. A desistência de Toffoli ocorreu após a Polícia Federal informar ao então presidente da Corte, Edson Fachin, sobre menções a Toffoli em mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, apreendido durante a operação.

Importante ressaltar que Dias Toffoli não foi declarado suspeito, e o STF manteve a validade de todos os atos processuais por ele praticados no decorrer do processo.

Em março de 2026, a PF deflagrou a 3ª fase da operação, focando em ameaças, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos. Naquela ocasião, o STF autorizou o bloqueio de até R$ 22 bilhões em bens associados aos investigados.

O CENÁRIO DO BANCO MASTER

O Banco Central liquidou extrajudicialmente o Banco Master em 18 de novembro de 2025, apenas um dia após Daniel Vorcaro ser preso pela PF na 1ª fase da Operação Compliance Zero. A instituição, então sob o comando do empresário, passou a ser investigada por suspeitas de irregularidades na emissão e negociação de ativos financeiros.

Naquele dia, Daniel Vorcaro foi detido no aeroporto de Guarulhos enquanto tentava embarcar em um jatinho particular. Embora a defesa tenha alegado que a viagem havia sido comunicada ao Banco Central e que o destino era uma reunião com investidores, a Polícia Federal sustentou a existência de risco de fuga.

O empresário permaneceu preso por 11 dias, sendo liberado no fim de novembro sob uso de tornozeleira eletrônica e outras medidas cautelares.

Daniel Vorcaro foi novamente preso em 4 de março de 2026, durante a 3ª fase da Compliance Zero, por ordem direta do ministro André Mendonça. Esta nova etapa da operação investigou suspeitas de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos.

Após essa nova prisão, Daniel Vorcaro iniciou tratativas para uma possível colaboração premiada. Em 19 de março de 2026, ele assinou um termo de confidencialidade com a PF e a PGR (Procuradoria Geral da República), um passo preliminar na negociação de uma delação. Na mesma data, o ministro André Mendonça autorizou sua transferência da Penitenciária Federal de Brasília para a Superintendência da PF na capital federal.

Entretanto, a proposta de colaboração premiada ainda não foi homologada pelo STF, o que significa que seus termos não são definitivos e podem ser alterados ou rejeitados. Em maio, André Mendonça declarou não ter tido acesso ao material entregue à PF e à PGR, enfatizando que uma colaboração premiada deve ser "séria e efetiva". Esta declaração veio a público após o ministro sinalizar que não pretendia homologar os termos inicialmente apresentados pela defesa de Vorcaro.

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