INVESTIGAÇÃO DE INTERFERÊNCIA
Parlamentares são investigados por interferir na demolição de 'resort' de traficante em Rio
Documento interno da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) aponta que deputado estadual Val Ceasa e ex-vereador Ulisses Marins tentaram impedir operações contra imóveis de luxo ligados ao Terceiro Comando Puro (TCP). Parlamentares são alvo de mandados de busca e apreensão.
Um documento interno da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop), obtido pelo g1, revela que o deputado estadual Val Ceasa (PRD) e o ex-vereador Ulisses Marins (União Brasil) tentaram interferir nas operações para impedir a demolição de imóveis de luxo do Terceiro Comando Puro (TCP) — um deles é o “resort” do traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, chefão da facção. Os parlamentares são alvos de mandados de busca e apreensão nesta quinta-feira, 18/06/2026.
De acordo com o relatório, a ação, que estava sendo planejada desde novembro de 2023 em conjunto com o Ministério Público do Estado do Rio (MPRJ) e a Polícia Militar, foi adiada mais de uma vez após vazamento de informações e pressões políticas. A demolição de imóveis apontados como base de atuação da facção Terceiro Comando Puro (TCP) estava inicialmente marcada para 14 de dezembro de 2023.
Dias antes da operação, porém, o Ministério Público foi informado de que Val Ceasa e Ulisses Marins teriam procurado o 16º BPM (Olaria) afirmando que os imóveis seriam usados para projetos sociais voltados a crianças e idosos. O documento detalha que os parlamentares tinham conhecimento prévio das construções que seriam alvo da operação, apesar de o planejamento estar sob sigilo. A suspeita levantada pelo próprio Ministério Público é de que houve vazamento de informação. O caso foi encaminhado à Procuradoria-Geral de Justiça (PGJ) para apuração.
O relatório cita ainda que, em 12 de dezembro de 2023, o ex-vereador Ulisses Marins entrou em contato com o secretário de Ordem Pública, Brenno Carnevale, informando que ele e o deputado estadual conhecido como “Val Ceasa” haviam estado com integrantes da Polícia Militar. Na ocasião, teriam sido informados de que não haveria apoio operacional para a demolição naquela semana. Sem garantias de segurança — já que a região integra o chamado Complexo de Israel, dominado por criminosos armados —, a operação foi cancelada por falta de apoio da PM.

As investigações indicam que os imóveis estavam ligados à atuação do TCP em áreas como Parada de Lucas, Vigário Geral, Cidade Alta e Cordovil. Relatórios técnicos da prefeitura e da Polícia Militar apontavam a ilegalidade das construções e o uso das estruturas pela facção.
Após o cancelamento, novas tentativas de demolição foram feitas ao longo de 2024, mas voltaram a ser interrompidas. Em outubro daquele ano, uma operação policial na região terminou com três mortos e evidenciou a forte resistência armada de criminosos, o que levou ao novo adiamento. A demolição só foi retomada em 2025. Segundo o documento da Seop, uma nova data chegou a ser marcada para fevereiro, mas a ação foi novamente adiada. Já em março, na véspera da operação, a secretaria foi informada de que não deveria participar da ação, apesar de já ter mobilizado equipes e equipamentos. A demolição acabou sendo realizada posteriormente.
Paralelamente, diligências da Polícia Militar indicaram indícios de que o suposto projeto social citado pelos parlamentares não tinha registro oficial. No local, agentes chegaram a encontrar faixas com nomes de políticos ligados às supostas iniciativas.
A reportagem tenta contato com os citados.
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