PERIGO NA FRONTEIRA

Pacientes relatam reações graves e falta de emagrecimento com canetas emagrecedoras falsificadas

Polícia Federal faz operação para investigar fabricação clandestina de Mounjaro
Polícia Federal faz operação para investigar fabricação clandestina de Mounjaro

Canetas emagrecedoras ilegais, contrabandeadas pelo Paraguai, causam náuseas, vômitos e até quadros neurológicos. Especialistas alertam para a falta de pureza e esterilidade dos produtos.

Foz do Iguaçu, cidade estratégica na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, tornou-se o principal ponto de entrada de canetas emagrecedoras ilegais no país. A localização privilegiada, com cerca de 30 quilômetros de fronteira e três pontes de acesso internacional, tem impulsionado o contrabando desses medicamentos, conforme noticiado em 24/05/2026. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) restringe a importação de emagrecedores, autorizando apenas cinco medicamentos para comercialização no Brasil: Mounjaro, Turzemax, Veltrane, ZPHC e Thera Biolabs. Contudo, muitos brasileiros optam por canetas emagrecedoras trazidas do Paraguai, produtos sem qualquer controle sanitário e que têm levado a graves problemas de saúde.

O chef de cozinha Paulo Marin, de 50 anos, é um dos que vivenciaram os riscos. Após ouvir de uma amiga sobre a eficácia da tirzepatida — princípio ativo do Mounjaro —, ele buscou um suposto médico que aplicava a medicação em um consultório improvisado. Marin relata que nunca viu o frasco ou a receita e pagava R$ 250 por semana. A primeira aplicação já provocou náuseas fortes, tontura, vômito e um hematoma na barriga. A segunda aplicação intensificou os sintomas e não houve emagrecimento. Meses antes, Paulo já havia tido uma experiência ruim com outra suposta "caneta do Paraguai", que o levou ao hospital com tontura, diarreia, vômito e enxaqueca.

Especialistas alertam para o abismo entre as exigências da Anvisa e a realidade dos produtos vendidos fora da rede regulada. Em análises de laboratório, as canetas falsificadas foram identificadas com soluções de pureza muito abaixo do aceitável, frascos sem esterilidade mínima, insumos de origem desconhecida e concentrações imprecisas. Em alguns casos, a presença de sibutramina, proibida para uso injetável, foi detectada. A produção em ambientes sem normas de assepsia, com matérias-primas baratas e difíceis de rastrear, além de frascos superconcentrados para múltiplos pacientes, ampliam o risco de contaminação.

Testes independentes indicam que frascos vendidos como tirzepatida apresentaram purezas entre 7% e 14%, quando o medicamento original exige 99%. "É outra substância. É um composto instável. Não se comporta como tirzepatida e não tem como gerar o efeito terapêutico esperado", explica Clayton Macedo, endocrinologista.

A legislação brasileira permite a manipulação de tirzepatida, mas sob condições rígidas: insumo com pureza comprovada, rastreabilidade total, manipulação em ambiente estéril, frascos produzidos sob demanda para um único paciente e prescrição individual. Farmácias que manipulam sem cumprir esses critérios criam preparações irregulares. Quando o produto não contém tirzepatida ou tem ingredientes não declarados, trata-se de falsificação. O mercado clandestino opera nessas zonas proibidas, sem rastreabilidade, controle de esterilidade ou pureza adequada, aumentando o risco de diluições improvisadas e dosagens erradas.

A aposentada Ivete de Freitas, 69 anos, comprou Mounjaro de uma conhecida que alegava importar da Argentina, por um preço mais baixo. O frasco chegou sem nome comercial, apenas com a composição impressa. Após aplicar, seu corpo se encheu de placas vermelhas, semelhante a sarampo, que pioraram à noite. Ela interrompeu o uso após cinco aplicações, quando os sintomas cutâneos e o mal-estar se intensificaram. A médica confirmou que o quadro poderia ter sido mais grave, citando ainda riscos de surtos psicóticos e diverticulite, com possibilidade de morte em casos extremos.

O uso de tirzepatida fora dos padrões farmacêuticos expõe o corpo a reações imediatas ou acumulativas. Náuseas incapacitantes, vômitos persistentes, desidratação e queda de pressão são comuns devido a impurezas ou solventes inadequados. Soluções sem esterilidade podem causar infecções, abscessos, inflamação local e febre. Alterações químicas podem levar a quadros neurológicos e cardiovasculares, como tontura, palpitações e picos de pressão. Produtos clandestinos podem conter estimulantes ou resíduos químicos desconhecidos, gerando reações imprevisíveis.

O risco de doses erradas é outro perigo. Concentrações elevadas podem causar hipoglicemia e confusão mental, enquanto concentrações baixas levam o paciente a aumentar a dose por conta própria. A degradação térmica da molécula, sem cadeia fria, gera subprodutos que podem irritar tecidos e causar alergias. Além disso, a falsa sensação de tratamento impede o controle adequado de doenças como diabetes ou obesidade, atrasando a terapêutica e aumentando riscos cardiovasculares e de progressão da doença.

A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, afirma que não produz nem autoriza a fabricação do medicamento em farmácias de manipulação ou a venda de produtos a granel. A empresa declara que qualquer solução líquida vendida como tirzepatida fora dos canais oficiais deve ser considerada falsificada, pois análises identificaram ampolas clandestinas com substâncias desconhecidas, impurezas e ausência de tirzepatida, ou misturas com outros ativos. A integridade química e microbiológica desses produtos não pode ser garantida, e não há controle de qualidade, esterilidade, cadeia fria ou rastreabilidade. A Lilly reitera que o Mounjaro legítimo é distribuído em canetas descartáveis, seladas e rastreáveis, mediante prescrição médica.

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