NICOTINA: NOVO VÍCIO
OMS alerta sobre riscos de nicotina para foco e produtividade, especialmente em jovens
Substância vendida como potenciador de desempenho mental, mas que gera alerta para dependência e danos à saúde por órgãos como a OMS, que aponta marketing agressivo para o público jovem.
A nicotina, substância conhecida por seu potencial viciante e associada ao tabagismo, está ressurgindo no mercado sob a promessa de aumentar o foco, a produtividade e o desempenho mental. Em formatos como sachês, cigarros eletrônicos e adesivos, o produto é apresentado como uma alternativa moderna, o que tem levado especialistas e organizações de saúde a emitirem alertas sobre os perigos da dependência e os impactos negativos à saúde, especialmente para os jovens. A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou nota sobre a expansão global desses produtos, destacando estratégias de marketing direcionadas a adolescentes e jovens, com vendas no varejo ultrapassando 23 bilhões de unidades em 2024.
Pequenos e discretos, os sachês de nicotina são colocados entre a gengiva e o lábio, liberando a substância pela mucosa oral. Frequentemente misturados com aromatizantes, adoçantes e outros aditivos, esses produtos avançam em diversos países com a falsa impressão de um consumo "limpo". A OMS expressa preocupação com a rápida expansão desses produtos, especialmente porque 160 países ainda carecem de regulamentação específica para sachês de nicotina. A combinação de embalagens sutis, sabores adocicados e forte presença nas redes sociais contribui para diminuir a percepção de risco entre o público jovem.
O alerta se estende a uma gama maior de produtos com nicotina. Além dos cigarros eletrônicos e sachês, a substância está presente em adesivos e gomas utilizados em terapias de reposição para cessação do tabagismo. Contudo, o discurso em redes sociais frequentemente desvirtua o uso dessas terapias, associando-as a discursos de melhora de foco, controle de apetite ou desempenho mental. É fundamental entender que qualquer produto que contenha nicotina carrega um risco significativo de dependência. A substância age rapidamente no cérebro, liberando dopamina e criando uma sensação de prazer ou bem-estar que leva o cérebro a buscá-la repetidamente.
A dependência de nicotina não se manifesta apenas pelo desejo de consumir o produto, mas também pela necessidade de moldar a rotina em torno dele, evitando situações onde o consumo é impossível ou sentindo ansiedade em ambientes restritivos. "A gente entende tabagismo hoje como uma doença, não simplesmente como um hábito de vida", afirma a psiquiatra Joana Rodrigues Marczyk, do Programa da Mulher Dependente Química, do IPq/HCFMUSP (Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo).
A PROMESSA DE DESEMPENHO
A ideia de que a nicotina pode aprimorar o foco e a produtividade baseia-se em um efeito conhecido da substância. Uma metanálise publicada em 2010 na revista Psychopharmacology, que analisou 41 estudos, encontrou efeitos positivos agudos da nicotina em domínios como atenção e memória de curto prazo em adultos saudáveis. No entanto, esses efeitos foram de magnitude pequena a moderada e o próprio estudo relaciona esses achados à iniciação e manutenção da dependência, e não a uma recomendação de uso para melhoria de desempenho.
Pesquisas sobre possíveis usos terapêuticos da nicotina focam em populações específicas, como indivíduos com comprometimento cognitivo leve. Um ensaio clínico piloto publicado na revista Neurology em 2012 observou melhorias na atenção e memória em adultos não fumantes com este diagnóstico ao utilizarem adesivos de nicotina por seis meses. Os próprios autores, contudo, ressaltaram a necessidade de estudos maiores para avaliar a relevância clínica desses achados.
Deslocar a nicotina para o campo da produtividade é, portanto, problemático. Segundo a psiquiatra Joana Marczyk, a sensação transitória de melhora na concentração não se traduz em um desempenho real e sustentado. Com o uso repetido, os efeitos da abstinência e o tempo dedicado ao consumo podem, paradoxalmente, prejudicar a performance que se buscava otimizar.
As terapias de reposição de nicotina, como gomas e adesivos, têm outro objetivo: aumentar em 50% a 60% as chances de parar de fumar para pessoas motivadas. O benefício reside no tratamento da dependência e na redução da exposição à fumaça tóxica do tabaco, não em transformar a nicotina em um produto de bem-estar ou desempenho.
A associação entre nicotina e produtividade não é nova. Ao longo do século passado, o cigarro foi incorporado a ambientes de trabalho e contextos militares como forma de lidar com fadiga e pressão. Já nos anos 1920, anúncios de tabaco promoviam o cigarro como um aliado da atenção e do rendimento. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914–1918), cigarros foram distribuídos a soldados, e as pausas para fumar se integraram à rotina fabril por sua brevidade e compatibilidade com a linha de produção.
A pneumologista Luiza Helena Degani Costa, do Einstein Hospital Israelita, observa que os novos produtos representam uma tentativa da "indústria de nicotina" – que vai além da indústria do tabaco tradicional – de manter o consumo em diferentes formatos. "E quer vender a nicotina em qualquer uma das suas formas", avalia.
RISCO SEM FUMAÇA
Os efeitos da nicotina transcendem o cérebro, impactando também o sistema cardiovascular. Como estimulante, pode elevar a frequência cardíaca, a pressão arterial e causar palpitações e dores no peito, aumentando o risco de arritmias e eventos cardiovasculares graves, como infartos.
O problema se agrava com a via inalatória, presente em cigarros convencionais, narguilés e cigarros eletrônicos. Nesses casos, o usuário inala não apenas nicotina, mas uma complexa mistura de substâncias que afetam o sistema respiratório. Os cigarros eletrônicos, ao aquecerem líquidos, geram reações químicas que podem formar novos compostos prejudiciais. Estes podem causar efeitos agudos como irritação, tosse e broncoespasmo, e com uso contínuo, estão associados a asma, bronquite crônica e DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica).
A EVALIi (lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico) ganhou notoriedade com um surto nos Estados Unidos em 2019, resultando em milhares de hospitalizações e dezenas de mortes confirmadas, segundo o CDC. Uma revisão publicada em 2025 no Scandinavian Journal of Public Health associou cigarros eletrônicos a maior risco de asma, sintomas respiratórios e DPOC. Sinais de risco para doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, câncer e complicações na gestação também foram identificados, embora a evidência de longo prazo ainda necessite de mais estudos.
No que diz respeito aos sachês de nicotina, a escassez de estudos sobre impactos de longo prazo é alarmante. Autores de uma revisão defendem pesquisas longitudinais e em larga escala para avaliar os efeitos considerando dose, duração de uso, formulação e exposição. Há uma urgência em esclarecer os impactos desses novos produtos, especialmente diante do crescimento do consumo entre jovens, para orientar políticas públicas e estratégicas de regulação.
BATALHA CONSTANTE
A quantidade de nicotina em alguns sachês pode chegar a 150 mg, e em cigarros eletrônicos, o uso de sais de nicotina permite concentrações mais altas com menor irritação. A nicotina é particularmente prejudicial para jovens, cujo cérebro ainda está em desenvolvimento, podendo afetar funções de atenção e aprendizagem e aumentar o risco de dependência.
A estética moderna e discreta dos novos produtos de nicotina contribui para diminuir a percepção de risco, afastando-os da imagem negativa associada ao cigarro tradicional. "A percepção de risco é um definidor para as pessoas na escolha de usar ou não", observa Joana Marczyk. Quando a aparência do produto reduz essa percepção, a resistência ao consumo diminui.
A experiência brasileira no controle do tabaco demonstra a eficácia de políticas públicas na moldagem da percepção de risco. Medidas como ambientes livres de fumo, proibição de propaganda e restrições de venda reduziram drasticamente o consumo de cigarros. No entanto, novos produtos desafiam essas conquistas. "A indústria do tabaco constantemente se contrapõe a essas políticas", opina Ana Natividade, pesquisadora da Fiocruz. "Com os novos produtos de nicotina, apesar das evidências científicas apontarem vários riscos para a saúde, a indústria promove a ideia de que são produtos inócuos ou menos prejudiciais."
O Reino Unido, por exemplo, aprovou uma lei que proíbe a venda de tabaco para nascidos a partir de 2009 e ampliou a regulação sobre vapes e outros produtos com nicotina. No Brasil, a Anvisa proíbe a comercialização e importação de dispositivos eletrônicos para fumar. "Dados de pesquisas populacionais, como o Vigitel, indicam que essa proibição ajudou a conter a disseminação do uso desses produtos no país", observa Natividade.
O desafio reside na constante reinvenção da indústria da nicotina, que lança produtos em formatos não contemplados pelas políticas públicas atuais. "A indústria se reinventa trazendo uma repaginação de produtos que não estão regulamentados nem contemplados pelas políticas públicas que a gente desenvolveu", analisa a psiquiatra do IPq.
Gostou desta notícia?
Entre no nosso grupo do WhatsApp!
Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!
📲 Quero entrar no grupo
Comentários (0)
Deixe seu comentário