RELANÇAMENTO DO PROGRAMA

Novo Desenrola Brasil busca frear endividamento em ano eleitoral; especialistas analisam desafios

Prós e contras do Desenrola 2.0
Prós e contras do Desenrola 2.0

A iniciativa do governo busca renegociar dívidas e reduzir a inadimplência, mas enfrenta críticas sobre sua eficácia a longo prazo e a necessidade de medidas estruturais para garantir a saúde financeira da população.

O Novo Desenrola Brasil, relançado no início de maio, busca reverter o aumento do endividamento da população em um cenário econômico desafiador e próximo às eleições presidenciais. A iniciativa do Palácio do Planalto visa oferecer alívio financeiro e fortalecer pautas com impacto direto no bolso dos brasileiros, em meio a um contexto político tenso no Congresso Nacional.

A justificativa oficial para a alta contínua da inadimplência, segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, reside em um "efeito sanfona". Esse fenômeno seria causado pelas oscilações da taxa básica de juros, a Selic, e pelos efeitos prolongados da pandemia de Covid-19. Durante o período pandêmico, o desemprego disparou e a renda estagnou, tornando o pagamento de dívidas inviável para muitos. "Muitas pessoas ficaram impossibilitadas de trabalhar e acabaram se endividando", explicou Durigan em entrevista recente ao programa "Roda Viva", da TV Cultura.

No entanto, especialistas divergem, apontando que o programa teve um impacto limitado e possivelmente temporário. Parte do mercado considera o Desenrola um "fracasso" em sua proposta de solução definitiva, argumentando que o problema do endividamento vai além das altas taxas de juros. A persistente inflação, especialmente em alimentos, o elevado custo de vida, a renda insuficiente, o crédito caro e a carência de educação financeira compõem um quadro complexo.

Mesmo com a recente melhora no mercado de trabalho, a criação de empregos ainda não foi suficiente para recuperar o poder de compra, e o aumento da renda média não conteve a inadimplência generalizada em 2026. "O juro nada mais é do que o custo do dinheiro. Se o dinheiro está caro, tende a haver mais inadimplência", analisa o economista Tiago Velloso. Contudo, ele ressalta que "esse não é o único fator".

O cenário pós-Desenrola 1 combinou problemas herdados da pandemia com novas tensões na economia global. Conflitos no Oriente Médio e a guerra na Ucrânia elevaram os preços do petróleo, pressionando a inflação mundial e retardando a queda dos juros no Brasil. A rápida digitalização do sistema financeiro, segundo Milene Dellatore, sócia-diretora do Grupo Mide, ampliou o acesso ao crédito fácil sem o preparo adequado da população. "O país conseguiu uma digitalização rápida, mas isso não veio acompanhado de educação financeira. O acesso ao crédito aconteceu antes de as pessoas estarem preparadas", observa.

Desenrola 1: um sucesso pontual, segundo o governo

Voltado para dívidas negativadas entre 2019 e 2022, com valor atualizado inferior a R$ 20 mil, a primeira edição do Desenrola (maio de 2023 a março de 2024) foi considerada um êxito pelo Ministério da Fazenda. Dados do Censo Nacional do programa indicam que cerca de 14,8 milhões de pessoas foram beneficiadas, com R$ 53,2 bilhões em acordos e descontos que ultrapassaram 90% para pagamentos à vista. As renegociações, majoritariamente feitas pelo celular, focaram em dívidas bancárias e de cartão de crédito. O governo federal reportou uma queda de 8,7% na inadimplência entre o público elegível.

A primeira faixa do programa atendia pessoas com renda de até dois salários mínimos ou inscritas no Cadastro Único (CadÚnico), com dívidas de pequeno valor. A segunda faixa contemplava indivíduos com renda de até R$ 20 mil mensais, com débitos em bancos. Empresas do setor, como a Recovery, especializada em recuperação de créditos, registraram cerca de 500 mil dívidas bancárias quitadas no período. Helena Passos, head de dados e planejamento da empresa, destacou que o programa permitiu a milhões de brasileiros "retomar a vida financeira quando encontram condições adequadas".

Indicadores gerais mostram pouca melhora a longo prazo

Apesar do alívio momentâneo proporcionado pelo Desenrola 1, os indicadores gerais do país revelaram pouca melhora sustentável. O endividamento geral, medido pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), aumentou de 76,9% em outubro de 2023 para 78,8% em março de 2024. A inadimplência geral recuou apenas 0,5 ponto percentual, caindo de 29,7% para 28,6%. A Serasa registrou um aumento de cerca de 590 mil pessoas endividadas entre outubro de 2023 e maio de 2024, somando 72,54 milhões de brasileiros nessa situação.

Após o fim do programa, a renda das famílias continuou sendo majoritariamente consumida por gastos essenciais como alimentação, moradia e transporte, empurrando muitos de volta para a inadimplência. Essa realidade sublinha a fragilidade da recuperação financeira sem mudanças estruturais.

O que muda no Novo Desenrola Brasil?

O Novo Desenrola Brasil prioriza famílias de menor renda, com foco em cidadãos que ganham até cinco salários mínimos. Na nova fase, as instituições financeiras também são orientadas a "desnegativar" dívidas de até R$ 100. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, vê o relançamento como uma resposta direta ao avanço da inadimplência após o fim da primeira edição, alinhando as renegociações a uma expectativa de queda nas taxas de juros.

Em balanço divulgado nesta quinta-feira (21), Durigan informou que, na primeira semana da nova fase, mais de 449 mil dívidas foram quitadas à vista no eixo voltado às famílias, com um desconto médio de 85%, totalizando R$ 154 milhões pagos de um montante de R$ 1 bilhão. "A gente deu um primeiro tratamento, mas não foi suficiente porque os juros voltaram a crescer. Mas o ideal é que isso seja pontual, não recorrente. As pessoas têm que pagar suas dívidas", declarou o ministro.

Analistas, contudo, reiteram que o efeito do programa é limitado sem reformas estruturais, destacando a educação financeira como um fator crucial de longo prazo. "Esse talvez seja o principal gargalo, o mais difícil de implementar, mas o mais importante", apontou o economista Tiago Velloso, que defende a ampliação da educação básica e financeira. Ele também enfatiza o papel da renda, afirmando que a criação de empregos precisa ser acompanhada por um aumento do rendimento médio e redução da informalidade.

A visão prevalente entre os especialistas é que programas como o Desenrola, embora importantes como incentivo, não resolvem o problema isoladamente. Sem mudanças estruturais, correm o risco de apenas reinserir as pessoas no sistema financeiro, potencialmente criando novos ciclos de endividamento.

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