PROMESSA QUEBROU DIGNIDADE

Mutirão odontológico 'gratuito' em SP termina em cobranças e drama para 143 moradores

Mutirão odontológico divulgado como gratuito termina em cobranças no interior de SP
Prefeitura de Bernardino de Campos (SP) divulgou nas redes sociais o mutirão, informando que os atendimentos seriam gratuitos para a população — Foto: Redes Sociais/Reprodução

A Prefeitura de Bernardino de Campos (SP) acionou a Justiça em novembro de 2025 contra a Faculdade do Centro Oeste Paulista (Facop) após um programa que prometia atendimentos dentários sem custo resultar em dívidas e tratamentos interrompidos. Casos como o de Vera Lúcia Bozoni e José Bonifácio Silva ilustram a angústia dos pacientes, que se viram diante de cobranças de até R$ 10 mil após confiar na gratuidade anunciada. O processo está em fase de diligências, e a decisão ainda não é definitiva.

A Prefeitura de Bernardino de Campos (SP) acionou a Justiça em novembro de 2025 contra a Faculdade do Centro Oeste Paulista (Facop), de Piratininga, após um mutirão odontológico prometido como gratuito terminar em cobranças indevidas para 143 moradores. O escândalo, que veio à tona com o início dos tratamentos em janeiro de 2025, revelou que o convênio previa apenas descontos, e não a gratuidade integral anunciada, deixando idosos e pessoas vulneráveis com tratamentos incompletos e dívidas inesperadas.

Inicialmente, a administração municipal de Bernardino de Campos (SP) divulgou o programa nas redes sociais, garantindo à população implantes e aparelhos dentários sem custo. Pacientes foram selecionados pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS) conforme a demanda.

A prefeitura esclareceu ao portal que a instituição procurou o município com a proposta de oferecer atendimentos odontológicos de forma totalmente gratuita. “O município atuou exclusivamente como apoiador logístico da iniciativa, disponibilizando transporte aos pacientes até o município de Bauru, local onde os atendimentos eram realizados pela faculdade”, informou a administração.

Contudo, o termo de convênio entre a prefeitura e a Faculdade do Centro Oeste Paulista (Facop), campus de Piratininga, ao qual o portal teve acesso, previa apenas concessão de descontos, sem qualquer garantia de gratuidade total. O documento estabelecia que o município seria responsável apenas pelo transporte e divulgação, sem responsabilidade financeira pelos tratamentos.

A prefeitura afirma que somente após o início dos procedimentos soube das cobranças. “Após o início dos tratamentos, o município tomou conhecimento de que a instituição passou a exigir cobranças financeiras dos pacientes para continuidade e implantação das próteses, situação divergente da proposta originalmente apresentada à Administração Pública e à população”, destacou em nota.

Tratamentos interrompidos

Diante da falta de recursos, muitos pacientes viram seus tratamentos interrompidos. É o caso de Vera Lúcia Bozoni, de 65 anos, que conta ter recebido uma cobrança de R$ 10 mil para seguir com o atendimento. “Primeiro falaram que era de graça, depois que colocaram o pino [no dente], falaram que só iam continuar se eu pagasse R$ 10 mil”, relata.

Vera, que se inscreveu pelo serviço social após a irmã indicar o suposto tratamento gratuito, sofreu um choque. “Eu fiquei nervosa, minha pressão subiu e eu fiquei internada. Meus filhos correram (para resolver) e me levaram para Cerquilho, mas não conseguimos”.

Sem condições de pagar, Vera Lúcia Bozoni permanece sem os dentes retirados em janeiro de 2025. Ela relata dores de cabeça, dificuldade para comer e beber água. “É só eu comer que começa a doer. Dor de cabeça, afogo quando vou comer e não consigo mastigar”.

O aposentado José Bonifácio Silva, de 71 anos, também participou do mutirão. Ele buscava substituir a dentadura por implantes dentários, um tratamento que, segundo os estudantes da faculdade, levaria cerca de seis meses. Contudo, assim como Vera, José não teve o tratamento concluído e ouviu que precisaria arcar com os custos para dar prosseguimento.

Com dores e dificuldade até para se comunicar, José precisou fazer um empréstimo de R$ 9 mil para buscar a conclusão do tratamento em uma clínica particular. “Quando falo disso, me dá até arrepio. A pior coisa que eu fiz na vida foi ter passado por isso. Eu ficava isolado da minha família, até para falar era ruim. Eles judiaram muito de mim durante o tratamento. Não queriam nem me anestesiar, uma vez deu hemorragia e apaguei”, desabafa. “Quero que pague pelo erro deles. Muita gente está na mesma situação que eu. Tenho sequelas desses problemas até hoje".

Município acionou a Justiça

A prefeitura informou que entrou com uma Ação Civil Pública contra a Faculdade do Centro Oeste Paulista (Facop) em novembro de 2025. O processo está em fase de diligências e instrução processual, o que significa que ainda não há uma decisão definitiva sobre o caso. Nesta quarta-feira, 13 de maio de 2026, a administração municipal reuniu-se com pacientes para coletar documentos, relatos e outras informações pertinentes aos atendimentos.

O portal questionou a Facop sobre o termo de convênio e as cobranças, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. O Ministério Público de São Paulo também foi procurado para verificar se acompanha o caso, mas não respondeu.

*Colaborou sob supervisão de Larissa Pandori

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