HERANÇA SOMBRIA
MPF investiga contas de escravizados na Caixa do século 19
Centenas de cadernetas de poupança revelam a vida financeira de cativos. O caso reacende debate sobre desigualdade e reparação histórica.
O Ministério Público Federal (MPF) abriu uma investigação profunda nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026, para apurar a existência de centenas de contas bancárias pertencentes a pessoas escravizadas no século 19. A decisão do órgão de controle, motivada pela recente descoberta de ao menos 158 cadernetas de poupança vinculadas a homens e mulheres cativos na antiga Caixa Econômica Provincial de Mato Grosso, busca lançar luz sobre um capítulo sombrio da história financeira brasileira e os impactos duradouros da escravidão na desigualdade social.
A Caixa Econômica Provincial de Mato Grosso, instituição criada durante o Império para incentivar a poupança popular e posteriormente incorporada à Caixa Econômica Federal, agora está no centro desta apuração histórica. Os documentos reveladores foram localizados por especialistas que pesquisam registros financeiros do período imperial, indicando que o número identificado em Mato Grosso pode ser apenas a ponta do iceberg, com muitos outros arquivos bancários espalhados pelo País.
A investigação do MPF se concentra em esclarecer a origem dos depósitos, compreender o funcionamento dessas contas e determinar o papel das instituições financeiras na administração dos recursos de pessoas submetidas à escravidão antes da abolição, em 1888. Os registros do século 19 apresentam nomes de pessoas escravizadas que mantinham cadernetas de depósito em seus próprios nomes, desafiando concepções simplificadas sobre a vida no período.
Esses materiais ajudam a desvendar aspectos pouco conhecidos sobre a realidade financeira de pessoas escravizadas no Brasil, incluindo suas estratégias de sobrevivência, os árduos esforços para comprar a própria alforria e as complexas formas de circulação econômica dentro de uma sociedade escravocrata. A historiadora Keila Grinberg, professora da Universidade de Pittsburgh e referência nos estudos sobre escravidão, ressalta a importância dessas descobertas. “Não sabemos por que essas pessoas não tiveram acesso às suas economias nessas décadas”, pondera a pesquisadora, apontando para as lacunas históricas e a necessidade de aprofundamento.
Segundo Grinberg, a mera existência dessas contas demonstra a participação ativa de pessoas escravizadas na vida econômica do país, mesmo sob um sistema brutal de violência e exploração. A pesquisadora enfatiza que o objetivo não é apenas apontar falhas de uma instituição específica, mas sim refletir sobre o "papel das instituições brasileiras na construção das desigualdades até hoje", abrangendo um contexto muito mais amplo.
Pesquisadores indicam que, em muitos casos, as pessoas escravizadas conseguiam acumular pequenas quantias por meio de trabalhos extras, venda de produtos ou prestação de serviços autorizados pelos seus proprietários. Parte desses recursos representava a esperança de liberdade, sendo utilizada para tentar comprar a própria alforria ou apoiar familiares.
Os documentos analisados revelam depósitos de homens e mulheres escravizados em diferentes momentos do século 19, com alguns indícios de movimentações financeiras relativamente frequentes, o que sugere um dinamismo econômico surpreendente para as condições da época. Esse estudo enriquece o debate sobre os profundos impactos econômicos da escravidão e suas persistentes consequências na desigualdade racial brasileira contemporânea.
A investigação do MPF foi deflagrada após provocação de pesquisadores e entidades dedicadas aos direitos humanos e à preservação da memória da população negra. O órgão federal analisará a necessidade de medidas relacionadas à reparação histórica ou à adequada preservação documental dessas memórias cruciais.
Especialistas alertam que casos semelhantes podem existir em outras regiões do Brasil. Arquivos históricos de antigas caixas econômicas provinciais e bancos do período imperial ainda estão sendo criteriosamente analisados em estados como Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Maranhão, na busca por mais evidências. A descoberta reforça a urgência da preservação de documentos históricos ligados à escravidão, um tema que por décadas recebeu atenção institucional insuficiente no Brasil.
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