VIOLÊNCIA E POLÍTICA
Livro Born expõe o colapso democrático que antecedeu o golpe na Argentina
Obra de María O'Donnell detalha o sequestro dos irmãos Born pelos Montoneros e o declínio institucional antes da ditadura de 1976.
A instabilidade política e a escalada da violência que marcaram o período pré-ditadura na Argentina revelam o colapso de uma democracia fragilizada pela radicalização. O cenário é analisado em profundidade na obra "Born", escrita pela jornalista María O'Donnell, que investiga o intervalo entre a morte de Juan Domingo Perón, ocorrida em julho de 1974, e o golpe de Estado de 1976.
O ponto central do relato é o sequestro de Juan e Jorge Born, herdeiros do conglomerado Bunge & Born, executado pelos Montoneros em 19 de setembro de 1974. A operação, que demandou um resgate de US$ 60 milhões, é utilizada pela autora para ilustrar como a violência revolucionária e a repressão estatal de grupos como a Triple A corroeram o tecido social argentino antes da tomada definitiva do poder pelos militares.
A obra, publicada originalmente em 2015, ganha novo fôlego com o anúncio de uma adaptação cinematográfica dirigida por Walter Salles. A narrativa desafia perspectivas unilaterais ao expor tanto o autoritarismo da extrema direita quanto as táticas de luta armada da esquerda, representadas pelo Exército Revolucionário do Povo (ERP) e pelos Montoneros, desconstruindo a ideia de que o golpe de 1976 era um destino inevitável.
Através do testemunho direto de Jorge Born, que anos mais tarde chegaria a negociar com seus antigos captores para reaver parte dos valores perdidos, María O'Donnell oferece um mergulho ético na memória nacional. O livro, que chegará ao Brasil pela editora Intrínseca em 2027, serve como um convite para compreender as fissuras de uma sociedade que viu a política ser substituída pela força bruta.
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