CRISE URBANA URGENTE

MPF exige obras emergenciais para salvar Ponta Negra do colapso hídrico

MPF exige obras emergenciais para salvar Ponta Negra do colapso hídrico

Ação pede liminar para obras em 30 dias e multa diária de R$ 5 mil por descumprimento, além de indenização de R$ 500 mil.

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública para cobrar do município do Natal (RN) a reestruturação integral do sistema de drenagem da praia de Ponta Negra. A iniciativa, que vem à tona nesta sexta-feira, 08 de maio de 2026, inclui um pedido de liminar para que obras emergenciais sejam executadas. O objetivo é conter a grave crise socioambiental na região, resguardar a saúde pública, o vital setor turístico e a preservação do Morro do Careca, especialmente com a proximidade da estação chuvosa.

No processo, o MPF destaca que Ponta Negra, cartão-postal da capital potiguar, sofre com alagamentos persistentes desde a conclusão da obra de aterro hidráulico, popularmente conhecida como “engorda” da praia, realizada em 2025. As investigações revelam que a deficiência na drenagem gera prejuízos significativos ao turismo, representa risco iminente à saúde da população e pode acelerar a erosão do Morro do Careca, comprometendo a recém-ampliada faixa de areia.

Mesmo diante do cenário crítico e sem adotar medidas eficazes para os alagamentos, a prefeitura anunciou a realização de um concurso para contratação de projeto de paisagismo e urbanização da orla. Os procuradores da República Ilia Freire, Victor Mariz e Camões Boaventura, responsáveis pela ação, classificam a situação da drenagem como “uma gravíssima crise socioambiental e técnica”. Eles enfatizam que “a intervenção judicial é inadiável para evitar que novas obras de urbanização consolidem um passivo ambiental irreversível.”

A urgência da situação levou o MPF a solicitar, por meio de liminar, a execução de obras emergenciais de manutenção, limpeza e desobstrução semanal das bocas de lobo e dissipadores. O prazo para o início dessas ações é de até 30 dias. A ação pede também a interdição e o isolamento de áreas de risco e da base do Morro do Careca, além da proibição de novas licenças urbanísticas até a solução definitiva do problema de drenagem. Se a liminar for acatada, o município terá ainda o prazo de 15 dias para fornecer todos os documentos técnicos sobre o sistema de drenagem e dados mensais de volumetria da areia da “engorda”.

Em caso de descumprimento das medidas, o MPF requer a aplicação de uma multa diária de R$ 5 mil. Adicionalmente, o órgão pleiteia que a sentença estabeleça uma indenização por danos morais coletivos no valor mínimo de R$ 500 mil. O objetivo primordial da ação é a reestruturação integral do sistema de drenagem, com novos projetos detalhados, funcionamento pleno dos dissipadores e um cronograma sistemático de manutenção preventiva e limpeza.

Análises da Fundação Norte-Rio-Grandense de Pesquisa e Cultura (Funpec) e a perícia do próprio MPF corroboram a ineficiência do sistema de drenagem. Os estudos identificaram tubulações falsas e galerias bloqueadas com concreto e rochas. As análises demonstraram que os 16 dissipadores existentes não cumprem sua função de dispersar as águas pluviais, resultando no acúmulo de água da chuva misturada à rede de esgotos, o que favorece a proliferação de vetores de doenças e põe em risco a saúde pública.

Além disso, os levantamentos técnicos alertam que as inundações podem acelerar o processo erosivo do Morro do Careca e causar a perda da faixa de areia recém-ampliada. Os estudos indicam que o deságue inadequado próximo à base da duna já está carreando sedimentos e provocou danos físicos, incluindo a derrubada de cercas de proteção do morro.

Em chuvas recentes, observadas no mês de abril, uma vala se abriu perto do morro devido à força da água das chuvas que escoa em direção ao mar, arrastando também a areia da “engorda”. A perícia concluiu que a manutenção preventiva e corretiva é crucial, sob o risco “de prejuízo financeiro vultoso pelo refazimento da ‘engorda’ e a abreviação da vida útil do empreendimento”.

O MPF buscou por diversas vezes a documentação necessária para a avaliação técnica da drenagem da praia, mas a Secretaria Municipal de Infraestrutura de Natal (Seinfra) não forneceu os registros solicitados. O órgão ministerial também tentou fiscalizar a obra extrajudicialmente, sem sucesso.

Para os procuradores da República, o município falhou ao priorizar o aterro hidráulico antes da conclusão do sistema de drenagem e demonstrou omissão na fiscalização de ligações clandestinas, na apresentação de projetos fidedignos e na manutenção adequada dos dispositivos.

A ação sublinha a grande relevância social e a importância turística e econômica da praia de Ponta Negra para todo o estado do Rio Grande do Norte. O MPF monitora há mais de uma década a necessidade de ações mitigadoras do processo erosivo na área, reforçando que todas as intervenções devem seguir rigorosamente as normas técnicas e ambientais para evitar novos e maiores prejuízos.

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