CRIME GLOBAL REVELADO

MPF e PF desvendam ascensão de jovem do Jardim Peri à máfia internacional

Representação da operação contra o tráfico de drogas entre Brasil e Itália
Operações conjuntas desvendam rotas e conexões do tráfico internacional de drogas.

Da prisão por 20 pedras de crack na zona norte de São Paulo a negociações de toneladas de cocaína na Europa: a intrincada jornada de Nicholas Charles Evangelista Lopes, foragido e procurado por conectar PCC e 'Ndrangheta, revelada em detalhes explosivos pela Polícia Federal e um mafioso delator.

A teia do tráfico internacional de drogas teve um de seus elos mais surpreendentes revelado em 25 de março, durante uma audiência na 16.ª Vara Criminal Federal de João Pessoa. O Ministério Público Federal obteve do mafioso delator Vincenzo Pasquino a confirmação do papel de Nicholas Charles Evangelista Lopes, conhecido como "Loko" e "Corintiano", como uma peça central na conexão entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e a 'Ndrangheta, a poderosa máfia da Calábria, Itália. Essa revelação, crucial para desmantelar redes que corrompem a sociedade e semeiam a violência, detalha a ascensão de um jovem da zona norte de São Paulo, outrora preso com poucas pedras de crack, a um broker de alto escalão no comércio global de entorpecentes, como detalhado no relatório de 2025 da Polícia Federal sobre a Operação Conexão Paraíba. Em seu depoimento, Pasquino detalhou os encontros em João Pessoa (PB), onde questionado pelo procurador, afirmou: “Comigo estava Rocco Morabito (chefe mafioso). Essa casa foi alugada pelo Pateta para nós. O Pateta mandava, junto com nós, com o Corintiano, droga para a Itália”. O procurador, então, questionou a identidade do “Corintiano”, e Pasquino prontamente respondeu: “O Nicholas, o Evangelista Nicholas.” Pasquino acabava de desvendar um dos principais segredos de sua colaboração: a identidade de Nicholas Charles Evangelista Lopes, de 33 anos, conhecido pelas alcunhas "Loko" e "Corintiano", e sua influência no consórcio criminoso formado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e a 'Ndrangheta, a mais importante organização mafiosa da Itália. A audiência, realizada em 25 de março na 16.ª Vara Criminal Federal de João Pessoa, ocorreu por videoconferência, com o declarante aparecendo apenas de costas na imagem, "por razões de segurança". “O Nicholas eu conheci quando cheguei no Brasil”, narrou o mafioso. O relatório final da Polícia Federal, concluído em 2025 ao término das investigações da Operação Conexão Paraíba, confirmou os detalhes. O documento aponta que o brasileiro já possuía histórico de prisões e processos por tráfico de drogas, utilizando as alcunhas "Loko" e "Quilha Surf", além de ser conhecido por sua paixão pelo clube Corinthians. As investigações revelam que Nicholas mantém "fortes laços com o PCC, agindo em todo o Brasil, adquirindo entorpecentes da Bolívia, Colômbia e Paraguai que são exportados em cargas aéreas e navios para toda a Europa, onde a facção tem focado seus esforços e expandindo seus negócios ilícitos". A transformação de Nicholas, de um pequeno traficante para um dos principais "brokers" do tráfico internacional de drogas, é o que esta reportagem aprofunda. Nascido em São Paulo, Nicholas viveu em Aracaju (SE), Guarujá (SP) e João Pessoa (PB). Na capital paraibana, segundo o documento policial, sua atribuição era "dar apoio a membros da máfia albanesa e a Vincenzo Pasquino". Nicholas é atualmente investigado como mafioso nas Operações Samba, da Direção Distrital Antimáfia (DDA) de Turim, e Conexão Paraíba, da Polícia Federal, e encontra-se foragido. A reportagem buscou contato com as defesas de Nicholas, Demétrio e Pasquino; enquanto os brasileiros negam os crimes, Pasquino os confessa.

A escalada criminal: da zona norte a broker internacional

A trajetória de Nicholas no submundo do tráfico começou cedo, em 20 de maio de 2011, aos 18 anos. Policiais militares o prenderam na Rua Odassi Massali, Jardim Peri, zona norte de São Paulo, após ele tentar fugir. Em sua posse, havia 20 pedras de crack, totalizando 2,9 gramas, e R$ 19. Nicholas alegou ser usuário e negou ser o proprietário da droga. Apesar de sua defesa, ele foi condenado a 5 anos de prisão, mas permaneceu detido por apenas um ano, sendo liberado por ser réu primário. Posteriormente, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reduziu sua pena para 2 anos e 4 meses, a serem cumpridos em regime aberto, com proibições de frequentar bares, portar armas e a obrigação de ter ocupação lícita e recolher-se em casa à noite. Em 14 de janeiro de 2017, Nicholas foi novamente flagrado com entorpecentes: 76 pinos de cocaína no Guarujá. Ele tentou subornar os policiais com R$ 100 mil para evitar a prisão, mas foi autuado em flagrante. Cinco meses depois, a 1.ª Vara Criminal do Guarujá concedeu-lhe a liberdade provisória, e, em seguida, ele foi absolvido, retomando a liberdade. Foi nesse período que o jovem Nicholas conheceu Demétrio Batista de Oliveira, o "Pateta", mencionado por Pasquino em seu depoimento. Empresário de Santos, Demétrio era cunhado de Júlio Cesar Guedes de Moraes, o "Julinho Carambola", o segundo na hierarquia do PCC. Demétrio havia sido preso em 10 de outubro de 2017 na Operação Contentor, deflagrada pela Polícia Federal após dez meses de investigação sobre remessas de cocaína do porto de Itapoá, em Santa Catarina, para Antuérpia, na Bélgica.

A aliança entre PCC e 'Ndrangheta

Demétrio era visto como o principal gestor do grupo responsável pelo transporte de cocaína boliviana até o porto, com planos de criar uma fábrica de alimentos enlatados para exportação. Ele teria estabelecido ligações com mafiosos importantes, como Rocco Morabito, que seria preso em 2021 junto com Pasquino em João Pessoa. A estrutura criminosa de Demétrio, Nicholas, Pasquino e Morabito começou a desmoronar quando a polícia francesa acessou os servidores do aplicativo de comunicação criptografada Sky ECC, amplamente utilizado por máfias e organizações terroristas. Os dados coletados foram cruciais e repassados à polícia italiana, revelando a extensão das operações. Conforme os investigadores italianos, já em 2019, Nicholas passou a negociar diretamente com Pasquino o envio de toneladas de entorpecentes da América do Sul para a Europa. Mensagens interceptadas do Sky ECC mostram discussões sobre cargas destinadas a Roterdã (Holanda) e Hamburgo (Alemanha). Nicholas usava cinco chips diferentes do sistema Sky ECC, registrados com os codinomes "Loko", "Corinthians", "Neymar2" e "Coringa". “Usava o ‘nickname’ Coringia/Coringa/Corinthiano porque é um ‘ultra’ (torcedor organizado) do time de futebol paulista Corinthians”, escreveram os investigadores da DDA de Turim. Além do envolvimento com o tráfico, Nicholas demonstrava interesse em roupas de grife, solicitando aos italianos que trouxessem ao Brasil sapatos e vestidos da marca Louis Vuitton para sua esposa, que preferia modelos casuais.

Fuga e o desabafo ao “pai” Demétrio

Em um sinal de sua crescente influência na organização, Nicholas passou a operar diretamente na Europa. Em janeiro de 2020, ele entregou um carro carregado de cocaína em Málaga ao mafioso Vito Luigi Basile, que transportou a droga para Turim, na Itália. Posteriormente, Nicholas esteve na Itália, onde negociou outro carregamento de drogas com os mafiosos Nicola De Carne e Pasquino. Essa cocaína partiria do porto de Santos com destino à Espanha, onde Nicholas participou de reuniões com a 'Ndrangheta. O Estadão não localizou as defesas de De Carne e Basile. A cocaína, embarcada em contêineres no Brasil, Uruguai, Panamá e Equador, tinha como destino a Europa, Ásia e Oceania. Em 25 de agosto de 2020, Pasquino e Nicholas discutiram com traficantes sérvios, albaneses e italianos a cobrança de € 840 mil devidos a brasileiros do PCC, ligados a Nicholas, pelo fornecimento de drogas a albaneses conectados à 'Ndrangheta. Além das mensagens, os investigadores coletaram fotos de carregamentos de drogas e pacotes de cocaína. Nicholas chegou a ser investigado na Operação Retis, da Polícia Federal no Paraná, mas conseguiu escapar. Ele chamava Demétrio de “pai” e demonstrava grande respeito nas mensagens, até ser preso na Espanha em janeiro de 2023. No mesmo ano, foi liberado e agora está foragido, com prisão decretada no Brasil. Em uma ocasião, desabafou para o "pai":

Nicholas escreveu: “Desde quando chegaram esses italianos, sei que a gente só se lascou; tudo se comprometeu com os conflitos. O senhor foi tranquilo, de cabeça limpa. Eu sei que a gente vai se levantar. Eu confio minha vida ao senhor. Eu quero trabalhar, meu velho, não quero mudar de vida não. Quero só ter uma estrutura e viver em paz com minha família. É igual você fala: é saber ganhar dinheiro e não gastar, pra ter o que gastar com advogado”.

Demétrio foi preso em São José dos Campos, em dezembro de 2024, como um dos alvos da Operação Conexão Paraíba, braço brasileiro da Operação Samba. Ele permanece detido até hoje, 18 de maio de 2026. Demétrio ouviu o depoimento de Pasquino na audiência de 25 de março, ao contrário de Nicholas, que continua sendo o principal foragido deste complexo caso que expõe a crua realidade do crime organizado internacional.

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