CRIME GLOBAL REVELADO
MPF e PF desvendam ascensão de jovem do Jardim Peri à máfia internacional
Da prisão por 20 pedras de crack na zona norte de São Paulo a negociações de toneladas de cocaína na Europa: a intrincada jornada de Nicholas Charles Evangelista Lopes, foragido e procurado por conectar PCC e 'Ndrangheta, revelada em detalhes explosivos pela Polícia Federal e um mafioso delator.
A escalada criminal: da zona norte a broker internacional
A trajetória de Nicholas no submundo do tráfico começou cedo, em 20 de maio de 2011, aos 18 anos. Policiais militares o prenderam na Rua Odassi Massali, Jardim Peri, zona norte de São Paulo, após ele tentar fugir. Em sua posse, havia 20 pedras de crack, totalizando 2,9 gramas, e R$ 19. Nicholas alegou ser usuário e negou ser o proprietário da droga. Apesar de sua defesa, ele foi condenado a 5 anos de prisão, mas permaneceu detido por apenas um ano, sendo liberado por ser réu primário. Posteriormente, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reduziu sua pena para 2 anos e 4 meses, a serem cumpridos em regime aberto, com proibições de frequentar bares, portar armas e a obrigação de ter ocupação lícita e recolher-se em casa à noite. Em 14 de janeiro de 2017, Nicholas foi novamente flagrado com entorpecentes: 76 pinos de cocaína no Guarujá. Ele tentou subornar os policiais com R$ 100 mil para evitar a prisão, mas foi autuado em flagrante. Cinco meses depois, a 1.ª Vara Criminal do Guarujá concedeu-lhe a liberdade provisória, e, em seguida, ele foi absolvido, retomando a liberdade. Foi nesse período que o jovem Nicholas conheceu Demétrio Batista de Oliveira, o "Pateta", mencionado por Pasquino em seu depoimento. Empresário de Santos, Demétrio era cunhado de Júlio Cesar Guedes de Moraes, o "Julinho Carambola", o segundo na hierarquia do PCC. Demétrio havia sido preso em 10 de outubro de 2017 na Operação Contentor, deflagrada pela Polícia Federal após dez meses de investigação sobre remessas de cocaína do porto de Itapoá, em Santa Catarina, para Antuérpia, na Bélgica.A aliança entre PCC e 'Ndrangheta
Demétrio era visto como o principal gestor do grupo responsável pelo transporte de cocaína boliviana até o porto, com planos de criar uma fábrica de alimentos enlatados para exportação. Ele teria estabelecido ligações com mafiosos importantes, como Rocco Morabito, que seria preso em 2021 junto com Pasquino em João Pessoa. A estrutura criminosa de Demétrio, Nicholas, Pasquino e Morabito começou a desmoronar quando a polícia francesa acessou os servidores do aplicativo de comunicação criptografada Sky ECC, amplamente utilizado por máfias e organizações terroristas. Os dados coletados foram cruciais e repassados à polícia italiana, revelando a extensão das operações. Conforme os investigadores italianos, já em 2019, Nicholas passou a negociar diretamente com Pasquino o envio de toneladas de entorpecentes da América do Sul para a Europa. Mensagens interceptadas do Sky ECC mostram discussões sobre cargas destinadas a Roterdã (Holanda) e Hamburgo (Alemanha). Nicholas usava cinco chips diferentes do sistema Sky ECC, registrados com os codinomes "Loko", "Corinthians", "Neymar2" e "Coringa". “Usava o ‘nickname’ Coringia/Coringa/Corinthiano porque é um ‘ultra’ (torcedor organizado) do time de futebol paulista Corinthians”, escreveram os investigadores da DDA de Turim. Além do envolvimento com o tráfico, Nicholas demonstrava interesse em roupas de grife, solicitando aos italianos que trouxessem ao Brasil sapatos e vestidos da marca Louis Vuitton para sua esposa, que preferia modelos casuais.Fuga e o desabafo ao “pai” Demétrio
Em um sinal de sua crescente influência na organização, Nicholas passou a operar diretamente na Europa. Em janeiro de 2020, ele entregou um carro carregado de cocaína em Málaga ao mafioso Vito Luigi Basile, que transportou a droga para Turim, na Itália. Posteriormente, Nicholas esteve na Itália, onde negociou outro carregamento de drogas com os mafiosos Nicola De Carne e Pasquino. Essa cocaína partiria do porto de Santos com destino à Espanha, onde Nicholas participou de reuniões com a 'Ndrangheta. O Estadão não localizou as defesas de De Carne e Basile. A cocaína, embarcada em contêineres no Brasil, Uruguai, Panamá e Equador, tinha como destino a Europa, Ásia e Oceania. Em 25 de agosto de 2020, Pasquino e Nicholas discutiram com traficantes sérvios, albaneses e italianos a cobrança de € 840 mil devidos a brasileiros do PCC, ligados a Nicholas, pelo fornecimento de drogas a albaneses conectados à 'Ndrangheta. Além das mensagens, os investigadores coletaram fotos de carregamentos de drogas e pacotes de cocaína. Nicholas chegou a ser investigado na Operação Retis, da Polícia Federal no Paraná, mas conseguiu escapar. Ele chamava Demétrio de “pai” e demonstrava grande respeito nas mensagens, até ser preso na Espanha em janeiro de 2023. No mesmo ano, foi liberado e agora está foragido, com prisão decretada no Brasil. Em uma ocasião, desabafou para o "pai":Nicholas escreveu: “Desde quando chegaram esses italianos, sei que a gente só se lascou; tudo se comprometeu com os conflitos. O senhor foi tranquilo, de cabeça limpa. Eu sei que a gente vai se levantar. Eu confio minha vida ao senhor. Eu quero trabalhar, meu velho, não quero mudar de vida não. Quero só ter uma estrutura e viver em paz com minha família. É igual você fala: é saber ganhar dinheiro e não gastar, pra ter o que gastar com advogado”.
Demétrio foi preso em São José dos Campos, em dezembro de 2024, como um dos alvos da Operação Conexão Paraíba, braço brasileiro da Operação Samba. Ele permanece detido até hoje, 18 de maio de 2026. Demétrio ouviu o depoimento de Pasquino na audiência de 25 de março, ao contrário de Nicholas, que continua sendo o principal foragido deste complexo caso que expõe a crua realidade do crime organizado internacional.Gostou desta notícia?
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