CRIME BÁRBARO AVANÇA

MPCE denuncia irmãos por tentativa de feminicídio após ataque brutal a Ana Clara

Foto dos irmãos Ronivaldo Rocha e Evangelista Rocha, acusados de decepar as mãos de Ana Clara de Oliveira.
Irmãos Ronivaldo e Evangelista Rocha, acusados de tentativa de feminicídio contra Ana Clara de Oliveira. — Foto: Reprodução

Ministério Público acusa Ronivaldo Rocha e Evangelista Rocha de decepar mãos de jovem em Quixeramobim (CE); vítima passou por três cirurgias de emergência e segue em recuperação.

O Ministério Público do Ceará (MPCE), através da promotora de Justiça Juliana Santos, da 2ª Promotoria de Quixeramobim, denunciou os irmãos Ronivaldo Rocha dos Santos, de 40 anos, e Evangelista Rocha dos Santos, de 34, por tentativa de feminicídio. A acusação formal, feita nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026, surge após os homens deceparem as mãos da jovem Ana Clara de Oliveira, de 21 anos, com golpes de foice, um ato de extrema barbárie motivado por um relacionamento conturbado e um sentimento de posse. A decisão do MPCE representa um passo crucial na busca por justiça para Ana Clara, marcando um firme posicionamento contra a violência de gênero e a objetificação da mulher, buscando garantir que a brutalidade não permaneça impune e que a dignidade da vítima seja restaurada.

Relacionamento conturbado e planos de fuga

Conforme a denúncia do MPCE, Ana Clara e Ronivaldo mantinham uma união estável por dois anos, marcada por discussões e agressões. Na noite do crime, o casal brigava na residência. Quando o conflito se intensificou, a vítima pediu insistentemente que Ronivaldo deixasse o local. Pouco tempo depois, ele retornou acompanhado do irmão, Evangelista, que portava uma foice.

A promotora Juliana Santos detalha a ação criminosa: “O cunhado da vítima desferiu golpes de foice contra ela, causando múltiplas lesões e decepando suas mãos. As agressões só pararam quando Ana Clara desfaleceu, e os dois irmãos fugiram”. A investigação da Polícia Civil aponta que Ronivaldo nutria um profundo sentimento de objetificação e posse sobre Ana Clara, tratando-a “como verdadeira extensão de sua vontade e domínio”.

A Polícia Civil, após autorização judicial para quebra de sigilo telefônico, obteve diálogos que comprovam a intenção de fuga dos irmãos. Evangelista pediu dinheiro a Ronivaldo para “sumir”. Em áudio, Ronivaldo repreendeu o irmão pela violência: “Era só ter dado umas mãozadas nela pra ela respeitar as cara”. Ele ainda expressou preocupação apenas com as consequências para si: “A culpa toda vai subir pra mim. Eu que tenho que sumir do mapa, [tu] se faz de doido é? Loucura que tu fez isso aí”.

Evangelista foi preso em 1º de maio de 2026, em Quixeramobim, onde agentes apreenderam a foice, roupas e um chinelo com manchas de sangue. Ronivaldo foi encontrado e detido no mesmo dia em Madalena. Ambos foram autuados por tentativa de feminicídio e estão atualmente em um presídio em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza.

Detalhes da noite do ataque

As investigações policiais detalharam a sequência dos eventos. Na noite do crime, Ronivaldo e Ana Clara ingeriram bebidas alcoólicas e iniciaram uma discussão. Ana Clara teria atingido o carro de Ronivaldo com uma pedra, e a discussão prosseguiu na rua, captada por câmeras de segurança. As imagens mostram Ronivaldo correndo atrás dela e, em determinado momento, gritando “eu vou te matar”.

Cerca de 20 minutos depois, Ronivaldo retornou de carro, acompanhado de Evangelista. O cunhado escalou o muro da casa de Ana Clara, e Ronivaldo entregou a foice, instigando o irmão a atacar. Segundo os documentos do processo, no primeiro golpe, a mão direita de Ana Clara foi decepada. Golpes subsequentes deixaram a mão esquerda semi-amputada, além de causar cortes profundos no ombro, perna e cotovelo da vítima.

Cronologia do terror

  • 00h33: Câmeras de segurança flagram o casal brigando na rua. Ana Clara diz a Ronivaldo que ele não ficará na casa dela, enquanto ele a chama de “ladrona”.
  • 00h37: Ronivaldo persegue Ana Clara e grita “tu vai me pagar” e “eu vou te matar”.
  • 00h57: Os irmãos retornam à casa de Ana Clara em uma caminhonete.
  • 00h58: Evangelista Rocha escala o muro da residência da vítima.
  • 01h00: Evangelista discute com Ana Clara, que chora e argumenta: “ele pode beber, eu não posso beber”.
  • 01h01: Ronivaldo ordena ao irmão: “Pode matar ela, pode matar”. Em seguida, são ouvidas pancadas e gritos. No mesmo minuto, Ronivaldo grita: “tu quebrou o vidro do meu carro, tu vai me pagar”.
  • 01h02: Ronivaldo chama Evangelista várias vezes e pergunta: “Evangelista, tu matou? Não era pra ter feito isso, não. Tu matou? Acabou com nossa vida”. O irmão sai da casa e diz: “Já era, acabou. Já era, vamos embora”.
  • 01h03: Evangelista afirma “já era, foi tu quem mandou”, e entrega a foice. Ronivaldo responde: “Eu sei, não era pra ter feito isso não”.
  • 01h04: Os dois deixam a casa, seis minutos após chegarem.

A luta de Ana Clara pela recuperação

Ana Clara foi socorrida após vizinhos ouvirem seus gritos e acionarem a Polícia e uma ambulância. Entre a sexta-feira, 1º de maio de 2026, e a segunda-feira, 11 de maio de 2026, a jovem passou por três cirurgias no Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza. No dia do crime, ela foi submetida a uma cirurgia de emergência de 12 horas para reimplante da mão, envolvendo cerca de 15 profissionais. O procedimento foi considerado bem-sucedido, e o fluxo sanguíneo para a mão reimplantada foi restabelecido.

Sete dias após a primeira cirurgia, Ana Clara deixou a UTI e foi para a enfermaria. Contudo, em 9 de maio de 2026, precisou de outra intervenção cirúrgica de oito horas, pois o dedo mindinho da mão esquerda reimplantada não apresentava fluxo sanguíneo adequado. Em 11 de maio de 2026, ela passou por uma terceira cirurgia programada para recuperação do tendão da perna, também lesionado pelos golpes de foice.

A jovem agora permanece em observação médica para avaliar a necessidade de possíveis transplantes de pele em áreas de necrose. Embora já apresente alguns movimentos, Ana Clara precisará de fisioterapia intensiva para uma recuperação completa e para tentar reaver a máxima funcionalidade de suas mãos, um símbolo de sua dignidade e capacidade de interação com o mundo.

Acusação de feminicídio tentado e meios cruéis

A Delegacia Municipal de Quixeramobim sustenta que Ronivaldo também é culpado pela tentativa de feminicídio, não apenas por ter buscado o irmão para cometer o crime e entregar a foice, mas por instigá-lo com gritos como: “Pode matar ela, pode matar”. O relatório de indiciamento da Polícia Civil aponta que Ronivaldo não demonstrou preocupação com a condição da vítima “brutalmente mutilada, mas exclusivamente com as consequências penais que recairiam sobre ele próprio”.

Para os investigadores, o retorno de Ronivaldo à casa com Evangelista tinha “inequívoco propósito feminicida e clara premeditação criminosa”. Os irmãos são acusados de feminicídio tentado, com agravantes de utilização de meio cruel (foice) e recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa da vítima. Com a denúncia do MPCE, o caso agora avança para a Justiça, que julgará a culpabilidade dos envolvidos neste crime bárbaro.

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