MOAGEM DE TRIGO
Moagem de trigo no Brasil supera 13 milhões de toneladas pelo segundo ano consecutivo
Apesar de aumento de 0,6% em 2025, setor enfrenta pressão de custos logísticos e volatilidade cambial. Brasil segue dependente de importações para suprir demanda interna.
A moagem nacional de trigo superou a marca de 13 milhões de toneladas em 2025, mantendo o patamar alcançado no ano anterior. A decisão, tomada por 140 moinhos de 105 companhias em todo o país, processou 13,27 milhões de toneladas do cereal. O motivo principal foi o aumento do consumo de produtos derivados do trigo no Brasil, o que elevou a demanda pelo grão. Essa performance é relevante porque demonstra a resiliência e o crescimento contínuo do setor de panificação e derivados, mesmo diante de desafios econômicos e logísticos.
A pesquisa da Abitrigo (Associação Brasileira da Indústria do Trigo) aponta um crescimento de 0,6% em comparação com 2024. Segundo Daniel Kummel, presidente da Abitrigo, a expansão reflete uma mudança no perfil de consumo dos brasileiros, com maior procura por massas, biscoitos, pães congelados e pré-misturas. "O setor está crescendo acima da população", destacou Kummel, evidenciando o impacto direto na vida cotidiana das pessoas que consomem esses produtos.
A distribuição do trigo processado em 2025 indica que a panificação e as pré-misturas representaram o maior destino, com 30%. A indústria de massas ganhou relevância, respondendo por 18% – um crescimento de três pontos percentuais. A indústria de biscoitos ficou com 12%, seguida pelo varejo com embalagens de 1 quilo (10%). Pães industriais e embalagens de 5 quilos somaram 9%, com o restante sendo destinado a pães congelados, farinhas integrais e outros alimentos.
Regionalmente, o Paraná liderou a moagem com 3,5 milhões de toneladas, consolidando sua posição como polo produtor e processador de trigo. O estado possui capacidade instalada para processar 4,4 milhões de toneladas. Santa Catarina moeu 474,6 mil toneladas, com capacidade para quase 700 mil. São Paulo registrou 1,7 milhão de toneladas moídas, ante uma capacidade de 2,5 milhões. No Rio Grande do Sul, foram moídas 1,3 milhão de toneladas, de uma capacidade de 1,8 milhão. A diferença entre capacidade instalada e moagem anual nessas regiões aponta para um potencial de expansão.
Apesar do avanço, o setor enfrenta pressões significativas. Kummel apontou que a rentabilidade tem sido afetada pelo aumento dos custos logísticos e pela oscilação cambial, impactando tanto a importação quanto o trigo nacional. Ele ressaltou que grande parte desse aumento de custos não foi repassado integralmente ao consumidor, contribuindo para a estabilidade relativa dos preços dos derivados do trigo nos últimos meses, um alívio para o bolso das famílias.
A dependência das importações de trigo permanece uma questão estrutural e logística para o Brasil. Com uma produção interna estimada em 7,9 milhões de toneladas no último ciclo e um consumo que gira em torno de 12 milhões de toneladas, o país ainda necessita suprir um déficit considerável com o mercado externo. As regiões Nordeste e Norte dependem quase exclusivamente de trigo importado (95% da moagem), São Paulo importa 72% do seu processamento, e o Centro-Oeste, embora com um equilíbrio maior, ainda importa 64% do cereal que mói. Essa dinâmica, explicada pela conveniência logística de portos para importação em detrimento da busca por produção interna, dificulta a autossuficiência.
O cenário internacional adiciona camadas de incerteza. A guerra entre Rússia e Ucrânia e as tensões recentes envolvendo Irã e Estados Unidos elevam a volatilidade nos preços globais do trigo, impactando toda a cadeia produtiva brasileira. Contudo, a Abitrigo assegura que não há risco de desabastecimento, pois os moinhos mantêm estoques estratégicos que garantem o fornecimento contínuo por três a quatro meses. A principal preocupação futura reside no comportamento climático global e seus efeitos na produção agrícola, o que pode trazer complexidade aos preços nos próximos meses.
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