ÉTICA NO PODER

Ministro André Mendonça autoriza operação da PF contra Ciro Nogueira

Senador Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro em fotografia relacionada à investigação
Senador Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro - Metrópoles

Polícia Federal cumpre decisão que apura possível tráfico de influência para beneficiar Daniel Vorcaro em projetos sobre Paten e SBCE.

O Ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou uma operação da Polícia Federal (PF) contra o Senador Ciro Nogueira nesta quinta-feira, 07/05/2026. A decisão impacta diretamente o Congresso Nacional, abrindo uma investigação sobre o possível uso indevido de influência legislativa para beneficiar o banqueiro Daniel Vorcaro, em um esquema envolvendo projetos de lei sobre créditos de carbono. A apuração levanta sérias questões sobre a transparência e a ética na elaboração de leis que podem moldar setores cruciais da economia, comprometendo a confiança da sociedade na integridade de seus representantes.

A investigação aponta que, em novembro de 2023, o banqueiro Daniel Vorcaro teria coordenado a retirada de rascunhos de projetos de lei de seu interesse da residência do senador Ciro Nogueira. Esses documentos, após revisão em um escritório indicado por Vorcaro, teriam sido entregues a um servidor vinculado ao parlamentar. Contudo, os projetos não foram apresentados pelo próprio Ciro Nogueira, mas sim pelos parlamentares Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) e Chiquinho Feitosa (Republicanos-CE).

Ambos os projetos de lei são cruciais para o setor financeiro e ambiental, tratando especificamente de créditos de carbono: o PL 5.174/2023, que institui o Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten), de autoria de Arnaldo Jardim, e o PL 412/2022, que cria o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), de Chiquinho Feitosa.

A decisão do Ministro André Mendonça, do STF, detalha o expediente que levou à autorização da operação. Ele cita que Daniel Vorcaro “ordenou a retirada, da residência do senador, de envelopes que conteriam minutas de projetos de lei de interesse do particular [Vorcaro], posteriormente levados a ‘escritório’ indicado por ele para revisão e, em seguida, entregues, já processados, a servidor vinculado ao parlamentar”.

Curiosamente, os dois projetos em questão foram oficialmente apresentados no Congresso Nacional em outubro de 2023 – nos dias 18 (SBCE) e 25 (Paten) – ou seja, antes da suposta retirada das minutas por Daniel Vorcaro da casa de Ciro Nogueira em novembro do mesmo ano.

Questionado pela coluna, o deputado Arnaldo Jardim afirmou não ter "ideia" do motivo do interesse de Vorcaro no projeto, negando ter tratado do tema com o empresário ou com Ciro Nogueira. “É um projeto meu, porque eu dei mais consistência. Houve uma versão anterior do ex-deputado Christino Áureo. Todo mundo diz que o Paten é de minha autoria, e é mesmo. O projeto tramitou na Câmara, depois foi ao Senado”, explicou Jardim.

A coluna tentou contato com Chiquinho Feitosa, mas não obteve retorno até o momento. O espaço permanece aberto para seu posicionamento.

A gravidade das alegações é reforçada por trechos da decisão de Mendonça, que indicam a preocupação em ocultar o elo entre o banqueiro e o processo legislativo. Os investigadores enfatizam que Daniel Vorcaro teve o cuidado de orientar a pessoa responsável por promover a devolução dos documentos "para que o motorista não consiga vincular o transporte do documento ao parlamentar", e também "para que o envelope utilizado não faça referência ao Banco Master". Essa conduta sugere uma tentativa deliberada de dissimular a influência nos bastidores, comprometendo a lisura do processo democrático.

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