ALERTA NA FLORESTA
Microplásticos chegam a girinos da Amazônia, alerta estudo pioneiro nas Américas
Pesquisadores da UFPA identificam contaminação em ambientes temporários, evidenciando a disseminação global da poluição plástica. Impactos na dignidade e desenvolvimento dos anfíbios são foco de preocupação.
Pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) detectaram microplásticos em girinos da Amazônia pela primeira vez nas Américas. A descoberta, realizada em poças ocasionais dentro de uma área preservada, revela que a poluição plástica atinge ambientes temporários na floresta, ampliando as evidências da disseminação global dessas partículas em praticamente todos os ecossistemas do planeta.
A bióloga Fabrielle Barbosa de Araújo, autora principal da pesquisa, destaca que esses locais funcionam como importantes berçários para diversas espécies, incluindo anfíbios. "Como se formam em áreas florestais, os mecanismos de entrada dos microplásticos são diferentes daqueles observados em rios e lagos permanentes", explica.
A pesquisa aponta que as florestas atuam como reservatórios dessas partículas, transportadas pelo vento ou pela água e retidas no solo e na matéria orgânica. Durante as chuvas, os resíduos acabam chegando às poças e lagoas, onde os girinos se desenvolvem.
A ingestão acidental é a forma mais comum de exposição: os animais confundem as pequenas partículas plásticas com alimento ou consomem organismos já contaminados. Contudo, a contaminação também pode ocorrer pela aderência das partículas às brânquias ou à pele, interferindo em funções fisiológicas essenciais durante a fase larval, quando respiram por brânquias e possuem pele permeável.
Os impactos nos girinos incluem alterações no sistema digestório, danos aos tecidos, mudanças comportamentais e prejuízos ao crescimento e desenvolvimento. A ciência investiga se essas partículas podem chegar ao nível celular, causar danos ao DNA e se permanecem nos indivíduos adultos após a metamorfose. O grupo de pesquisa já havia registrado a presença de microplásticos nos pulmões de sapos amazônicos.
Embora a origem exata das partículas não tenha sido determinada, a predominância de fibras sintéticas sugere o descarte de tecidos como poliéster e nylon. Comunidades próximas à área estudada enfrentam limitações na coleta e tratamento de esgoto, o que pode contribuir para a chegada dos contaminantes aos corpos d’água. A concentração encontrada nas lagoas temporárias se assemelha à de áreas fortemente impactadas pela atividade humana, evidenciando que a Amazônia não está isolada da poluição plástica global.
Considerados importantes biomonitores da qualidade ambiental, os anfíbios revelam alterações que passam despercebidas. A descoberta é preocupante, pois este grupo já é o mais ameaçado entre os vertebrados do planeta. Compreender os efeitos dos microplásticos nos anfíbios amazônicos é crucial para a conservação dessas espécies e para a avaliação da saúde dos ecossistemas da maior floresta tropical do mundo. O estudo foi realizado sob supervisão de Rodrigo Peronti.
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