ALERTA HÍDRICO NACIONAL
Metade das cidades brasileiras perde área de rios e lagos desde 1985, aponta MapBiomas
Levantamento do MapBiomas revela que 45% dos municípios tiveram redução de água superficial. Especialistas apontam mudanças climáticas e desmatamento como causas.
Quase metade das cidades do Brasil, 2.511 municípios, registrou em 2025 uma redução na superfície de água de seus rios, lagos e áreas alagadas em comparação com a média histórica. Este cenário de perda hídrica se repete há pelo menos quatro décadas, com o país tendo perdido desde 1985 uma área de água equivalente a mais que o dobro do estado de Sergipe. Os dados são do MapBiomas Água, divulgado nesta terça-feira, 16 de junho de 2026.
A pesquisa, que utiliza imagens de satélite e inteligência artificial para mapear mensalmente a cobertura de água desde 1985, dimensiona os efeitos de secas mais frequentes e alterações no regime de chuvas. Especialistas associam essa redução persistente a uma combinação de fatores, incluindo mudanças climáticas, desmatamento, eventos climáticos extremos e modificações no uso do solo.
A diminuição da superfície hídrica pode gerar pressões significativas sobre o abastecimento urbano, a geração de energia, atividades industriais, a agricultura e o consumo humano. É importante notar que o levantamento se concentra na extensão da água vista por satélite, não medindo diretamente o volume disponível, a qualidade ou a segurança hídrica municipal.

Entre os municípios com as maiores perdas de superfície de água em 2025, destacam-se Corumbá (MS), com uma redução de 474 mil hectares (-56,7%), e Cáceres (MT), com -189 mil hectares (-54,8%). Poconé (MT), Aquidauana (MS) e Pimenteiras do Oeste (RO) também figuram na lista com perdas expressivas.
As maiores perdas, tanto em volume quanto em proporção, concentram-se no Pantanal, nas regiões de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A Região Hidrográfica do Paraguai, que abrange essa área, perdeu 53,8% de sua superfície de água em 2025, totalizando 877 mil hectares a menos que a média histórica.
A análise do MapBiomas Água distingue entre corpos hídricos naturais — rios, lagos e áreas alagadas que existem sem intervenção humana — e corpos hídricos antrópicos, como represas e reservatórios. Desde 1985, os reservatórios artificiais cresceram 69%, ganhando 1,7 milhão de hectares, enquanto os corpos naturais encolheram 19%, perdendo 3,2 milhões de hectares.
Essa transformação é mais acentuada em biomas como o Cerrado e a Mata Atlântica. No Cerrado, mais da metade da superfície de água mapeada em 2025 provém de reservatórios, e na Mata Atlântica, a maior área absoluta de corpos hídricos artificiais se encontra, com 1,3 milhão de hectares.
Por outro lado, o Pantanal, onde a perda hídrica é mais crítica, depende quase inteiramente de água natural, com mais de 99% de sua superfície hídrica mapeada. O bioma não conta com a 'reserva' que represas artificiais poderiam oferecer, tornando-o mais vulnerável a secas prolongadas e à alternância entre períodos de cheia e estiagem, essenciais para sua biodiversidade.

A análise decenal do MapBiomas indica uma diminuição consistente da área coberta por água no Brasil nas últimas quatro décadas. De 19,86 milhões de hectares entre 1985 e 1994, o país caiu para 17,28 milhões de hectares entre 2015 e 2024. A perda acumulada nesse período é de 2,58 milhões de hectares.
Em 2025, observou-se uma leve melhora, com 18,2 milhões de hectares de superfície de água, um aumento de 5,3% em relação a 2024. Contudo, este volume ainda permanece abaixo da média histórica de 18,5 milhões de hectares, o que mantém a situação preocupante a longo prazo.
Juliano Schirmbeck, coordenador técnico do MapBiomas Água, alerta que um único ano positivo não reverte a tendência histórica de queda. O Brasil enfrenta um cenário de secas mais intensas, influenciado por fatores como o fenômeno El Niño, o aquecimento global — que aumenta a evaporação — e o desmatamento, que impacta diretamente a liberação de umidade para a atmosfera e o regime dos rios.
O Pantanal registrou a pior perda em 2025, com sua superfície de água 56% abaixo da média histórica. O bioma enfrentou um dos períodos mais críticos de seca e incêndios em 2024. Apesar de um aumento de 34% na superfície de água em 2025 comparado a 2024, o volume ainda está distante da média histórica.
Em contraste, a Amazônia apresentou o melhor desempenho em 2025, com sua superfície de água 2,6% acima do esperado após dois anos de seca severa. O estado do Pará liderou os ganhos de água no país. A Amazônia concentra a maior parte da água superficial do Brasil, majoritariamente composta por corpos hídricos naturais. No entanto, a recuperação não foi homogênea, e a situação de comunidades ribeirinhas, que dependem dos rios para transporte, pesca e abastecimento, continua sendo motivo de atenção.
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